segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ônibus.


- Você parece triste.
- Sempre é triste...
- Você se arrepende de algo? Ou de alguém?
- Não, senhora.
- Ela realmente parece arrependida.
- Mas ela também está sorrindo.
- Sim, senhora. Um sorriso arrependido. Às vezes aparece durante a noite, quando a noite vai se deitar ela dá lugar à escuridão, quando as horas respiram mal. E quando a solidão, sozinha, se transforma em remorso.
- Você pode se arrepender ou sorrir. Não os dois ao mesmo tempo!
- Não, senhora. Os dois eventos, sorriso e arrependimento, coexistem. Então, o tempo aqui é vertical.
- Ai!
- O sentimento é irreversível, por assim dizer, a reversibilidade é aqui sentimentalizada. O sorriso se arrepende, e o arrependimento sorri.
- Posso?
- Controle de arrependimento.
- Acho que sim, senhora!

Era uma espera sem sentido. Uma espera sem sentido, e, portanto, ainda assim direcionada para a espera, o sonhador. Era um tipo de convite para ele para fazer uma última tentativa, um último esforço criativo para sair do sonho, do destino, da sorte, da forma, de si mesmo.

- Tenho visto a vida inteira, sem uma exceção sequer, homens com rostos duros, contorcidos, que demonstram tão terrível temperamento e rugem tão horrivelmente que metem medo em lobos. Frequentemente me pergunto o que é mais fácil de penetrar, as profundezas do oceano, ou as profundezas do coração humano!
- Saudações a ti, velho oceano!
- Saudações a ti, velho oceano! Diga-me se o Príncipe das Trevas luta dentro de você! Diga-me!
- Você que deve me dizer!
- Eu ficaria encantado em saber que o Inferno está tão perto do homem!
- Saudações, velho oceano!
- Ainda não!
- Então, uma última vez, eu saúdo a ti, velho oceano. Tuas ondas cristalinas superam a beleza da noite. Responda, oceano! Se és meu irmão, rola tuas temerosas ondas, odiento oceano, diante do qual eu falho.
- Saudações, velho oceano!
- Agora!
- Saudações, velho oceano!

    "Falo mais baixo...
    Cada ano falo mais baixo...
    Pensando melhor,
    não, não está bom...
    Quando as pessoas parecem
    que me conheceram,
    É como se..."

Observe esse silêncio, sua boca também ansiava abrir num último grito mudo de horror. No entanto, enquanto ele via o silêncio, quase antes de ele ver, ele não mais viu. Pois a noite reúne suas forças uma última vez para vencer a luz. Mas a luz vai esfaquear a noite nas costas. E agora, muito calmamente no começo, como se para não alarmá-lo, o sussurro que o Homem ouvira não tanto tempo atrás, há tanto tempo, muito antes de ele existir, o sussurro recomeçou.

- Então o quê?
- Não sei... Não deveria ter começado... O sentimento. Sempre senti que havia um assassino dentro de mim, antes do nascimento! Mesmo, no chão ligado a você pelo amor, pelo amor...
- Claro, ele deve ser trazido de volta à vida!
- É isso que torna o trabalho tão difícil. Mas faz parte da aflição. Mas eu preciso continuar. Vou continuar...
- Pare de dizer "eu" o tempo inteiro.
- É assim que eu falo, é como eu falo comigo mesmo. Naquela tarde... Aqui, na terra... Só há eu, e uma voz que não pode ser ouvida, porque não se dirige a lugar algum. Então, à noite, alguém sussurra no meu quarto. É o vento ou são meus ancestrais?
- Ocidentais, entre outros, acreditam que há um quarto, e outro quarto: o Além. A Morte é a porta que leva de um quarto ao outro.
- Mas por que tornar a porta uma tragédia? O Homem nasce para a morte.
- Ele pode causá-la se quiser.
- Mas em nenhuma civilização, nenhuma, o homem optou por sua própria morte. No entanto, escolher não ter renascido é o bastante.
- Algumas vezes você se pergunta se está no planeta certo!

    "Quando separamos
    essa terra do sol?
    Quem nos deu a esponja
    para apagar o horizonte?
    Não estamos caindo para sempre?
    Não consegue ver a noite chegando...
    nada a não ser a noite?"