terça-feira, 1 de novembro de 2011

Experiências de um leitor.



por Vladimir Nabokov.

[Aula para um restrito número de alunos de Wellesley e Cornel.]


Há cem anos Gustave Flaubert, numa carta à sua namorada, fez o seguinte comentário: “Como seríamos sábios se conhecêssemos bem apenas cinco ou seis livros”.
No ato da leitura é preciso perceber e apreciar cada detalhe. Não há nada errado com a generalização, quando acontece depois que as preciosas minúcias do livro foram carinhosamente coletadas. Se começamos a leitura com uma idéia preestabelecida então começamos pela extremidade errada e nos afastamos, cada vez mais, do livro, antes mesmo de começar a entendê-lo.
Nada é mais desagradável ou injusto para com o autor do que começar a ler, por exemplo, Madame Bovary, com a noção preconcebida de que a história é uma denuncio contra a burguesia. Devemos sempre lembrar que o trabalho artístico é, invariavelmente, a criação de um novo mundo. Assim, a primeira coisa que deveríamos fazer seria estudar este novo mundo, o mais intimamente possível considerando-o como algo completamente novo, não tendo nenhuma ligação óbvia com os mundos que já conhecemos. Quando este novo mundo já foi intimamente estudado, então, e só então, vamos examinar suas ligações com outros mundos, com outros ramos do conhecimento.
Outra questão: podemos esperar obter informações sobre lugares e época ao lermos um romance? Pode alguém ser tão ingênuo a ponto de pensar que vai aprender alguma coisa sobre o passado, lendo aqueles grossos best-sellers que são espalhados por todos os cantos, pelos clubes de leitura, sob o título de novelas históricas? Mas, e as obras-primas? Podemos confiar na descrição de Jane Austen da Inglaterra dos grandes proprietários rurais, com baronetes e campos floridos, quando tudo que ela conhecia era o gabinete da casa de um clérigo? E Bleak House, aquele fantástico romance que se passa numa fantástica Londres? Certamente não. O mesmo acontece com outros livros deste tipo. A verdade é que grandes romances sempre são grandes contos de fadas e os romances deste tipo são contos de fadas notáveis.
O tempo e o espaço, as cores das estações, os movimentos dos músculos, as mudanças de pensamento, tudo isso, para os escritores geniais (tanto quanto podemos supor, — e acredito que estejamos certos) não são simples noções tradicionais que podem ser copiadas das bibliotecas ambulantes que contêm verdades notórias, mas uma série de raras surpresas únicas, que grandes artistas aprenderam a expressar de maneira própria e invulgar. Para autores menores sobra a ornamentação do lugar comum. Eles não se incomodam em reinventar o mundo; simplesmente tentam extrair o máximo de uma determinada ordem de coisas, de tradicionais padrões de ficção. As várias combinações que estes autores menores são capazes de produzir, dentro destes limites fixados, podem até ser bastante agradáveis, de forma suave e passageira, porque leitores menores gostam de reconhecer suas próprias idéias em agradáveis disfarces. Mas o verdadeiro escritor, aquele que faz planetas girarem e modela o homem adormecido e, avidamente, transforma sua costela, este tipo de autor não possui valores estabelecidos, à sua disposição, ele mesmo deve criá-los.
A arte de escrever é uma ocupação fútil, sobretudo se não implica uma visão do mundo como ficção em potencial. A substância deste mundo pode ser suficientemente real (até onde se pode considerar a realidade), mas não existe, em absoluto, como um todo incontestável: é o caos. E para este caos o autor diz: “Vai”, autorizando o mundo a chamejar e a fundir-se. Agora ele é recombinado até em seus átomos e não apenas em suas partes visíveis e superficiais. O escritor é o primeiro homem a traçar os caminhos e dar nomes aos objetos naturais que esse mundo contém. Aqueles grãos ali são férteis. Aquela fera que cruzou meu caminho pode ser domada. Aquele lago entre aquelas árvores será chamado Lake Opal ou, mais artisticamente, Dishwater Lake. Esta neblina é uma montanha e esta montanha deve ser conquistada. Por sobre uma rampa, sem pegadas, caminha o artista maior e, no topo, numa serra ondulada, quem vocês pensam que ele encontra? O leitor, ofegante e feliz, e lá eles, espontaneamente, se entram e se ligam para sempre, se o livro for daqueles que duram para sempre.
Incidentalmente, usa a palavra “leitor” de maneira muito vaga. Mas é curioso, não se pode ler um livro: podemos apenas relê-lo. Um bom leitor, o leitor maior, um leitor ativo e criativo é o releitor. E vou lhes dizer por quê. Quando se lê um livro, pela primeira vez, o laborioso processo de movimentar os olhos da esquerda para a direita, linha após linha, página após página, esse complicado trabalho físico sobre o livro, esse processo de captar, em termos de espaço e tempo, o assunto do livro, é uma barreira entre nós e a apreciação artística. Quando olhamos um quadro não temos de mover nossos olhos de maneira especial, mesmo se, como num livro, a pintura contém elementos de profundidade ou seguimento. O elemento tempo realmente não está presente num primeiro contato com a pintura. Na leitura de um livro devemos ter tempo para nos acostumarmos com ele. Com relação à leitura o corpo humano não dispõe de nenhum órgão capaz de, primeiro abranger o todo (como, no caso da pintura, os olhos sobre a tela) e, depois se fixar em cada um dos detalhes. Mas, numa segunda ou terceira, ou quarta leitura podemos, em certo sentido, nos comportar com o livro como fazemos com o quadro. Entretanto, não confundamos os olhos, estas obras-primas da evolução, com o pensamento, uma realização ainda mais fantástica. Um livro, não importa o que seja — um trabalho de ficção ou um trabalho científico (a linha divisória entre os dois não é tão clara como geralmente se pensa) — um livro de ficção apela, acima de tudo, à mente. A mente, o cérebro, o ponto mais sensível da espinha são, ou deveriam ser, os únicos instrumentos usados na leitura de um livro.
Sendo assim, poderíamos levantar a seguinte questão: como é que a mente funciona quando um leitor sombrio se depara com um livro ensolarado? Primeiro, aquele estado de espírito solene se desfaz e, para melhor ou para pior, o leitor aceita as regras do jogo. O esforço para começar a ler um livro, principalmente quando é elogiado por pessoas que o jovem leitor secretamente considera muito antiquadas ou muito sérias, é, na maioria das vezes, difícil de se realizar; mas, uma vez feito, as recompensas são várias e abundantes. Uma vez que o artista maior usou sua imaginação criando seu livro, é natural e justo que o consumidor deste livro use também sua imaginação.
Há, entretanto, pelo menos duas variáveis de imaginação no caso do leitor. Vamos ver então qual das duas é a correta para ser usada na leitura de um livro. Primeiro, há uma espécie de imaginação comparativamente inferior que se transforma em sustentáculo de emoções simples e é, definitivamente, de natureza pessoal. (Aqui, na primeira fase da leitura emocional, existem diversas variantes.) Uma situação do livro é intensamente sentida porque relembra algo que aconteceu a nós ou a alguém que conhecemos ou conhecíamos. Ou, ainda, o leitor considera o livro um tesouro principalmente porque evoca um país, uma paisagem, um modo de vida que ele, nostalgicamente, recorda como parte de seu próprio passado. Ou, também, e isto é a pior coisa que um leitor pode fazer, ele se identifica com uma personagem do livro. Esta variante inferior não é a espécie de imaginação que eu gostaria que os leitores usassem.
Então, qual é o autêntico instrumento a ser usado pelo leitor? É a imaginação impessoal e o prazer artístico. Penso que, o que deveria ser estabelecido é um equilíbrio artístico harmonioso entre o pensamento do leitor e o do autor. Deveríamos permanecer um pouco distantes e sentir prazer neste distanciamento, ao mesmo tempo, deveríamos apreciar intensamente, apaixonadamente, com lágrimas e arrepios, o secreto fascínio de uma obra-prima. Ser bastante objetivo nestes assuntos é, naturalmente, impossível. Tudo que vale a pena é, de alguma forma, subjetivo. Por exemplo, vocês sentados aí, podem ser simplesmente um sonho meu, e eu, certamente, o pesadelo de vocês. Mas o que quero dizer é que o leitor deve saber quando e onde frear sua imaginação. Isto ele consegue procurando ver claramente o mundo específico que o autor coloca à sua disposição. Devemos ver coisas e ouvir coisas, devemos visualizar as salas, as roupas e os gestos das personagens do autor. A cor dos olhos de Fanny Price em Mansfield Park e a mobília de seu quarto pequeno e frio são importantes.
Cada um tem temperamento diferente. E posso lhes dizer, agora mesmo: o melhor temperamento que um leitor pode ter ou desenvolver é a combinação do artístico com o científico. O artista entusiasta, quando só, tende a ser subjetivo demais na sua atitude em relação ao livro, e assim a frieza de julgamento científico vai moderar esse ardor intuitivo. Se, entretanto, um pretenso leitor é completamente destituído de paixão e paciência — uma paixão de artista e uma paciência de cientista — dificilmente apreciará a literatura maior.
A literatura não nasceu no dia em que um menino gritando: “Olha o lobo, olha o lobo” saiu correndo do vale de Neanderthal com um lobo cinzento e grande em seus calcanhares. A literatura nasceu no dia em que um menino veio gritando: “Olha o lobo, olha o lobo” e não havia nenhum lobo atrás dele. (Que o pobre menino tenha sido devorado por uma fera de verdade, por ter mentido tantas vezes, é apenas um incidente.) Mas, aqui está o que é importante. Entre o lobo do vale e o lobo da história existe algo flamejando. Este algo, este prisma, é a arte da literatura.
Literatura é invenção. Ficção é ficção. Chamar uma história de verdadeira é um insulto, tanto para a arte, como para a verdade. Todo grande escritor é um grande enganador. Mas assim é também a Natureza, esta arqui-impostora. A Natureza sempre engana. Desde a simples armadilha da procriação, até a prodigiosa e sofisticada ilusão das cores de pássaros e borboletas, que são passam de camuflagem protetoras. Existe na Natureza um sistema maravilhoso de magias e astúcias. O escritor de ficção, apenas segue o exemplo da Natureza.
Voltando, por um momento, ao nosso confuso menininho do vale, que gritava “olha o lobo”, podemos colocar as coisas assim: a magia da arte estava na sombra do lobo que ele deliberadamente inventou, no seu sonho sobre o lobo; depois disso o relato de suas traquinagens deu uma boa história. Quando afinal ele morreu, a história contada sobre ele adquiriu o significado de uma boa lição, daquelas que se contam ao redor de uma fogueira de acampamento. Mas, ele era o pequeno mágico. Ele era o inventor.
Um escritor pode ser considerado sob três pontos de vista: como um contador de histórias, como um professor e como um mágico. O escritor maior reúne estes três — o contador de histórias, o professor e o mágico. Mas é o mágico que existe nele, que predomina e faz dele um escritor maior.
Para o contador de histórias, nos voltamos em busca de entretenimento, de excitação mental do tipo mais simples, de participação emocional, do prazer de viajar por uma região remota no tempo ou no espaço. Um intelecto um pouquinho diferente, embora não necessariamente superior, procura no escritor o professor. Propagandista, moralista, profeta — esta é a seqüencia crescente. Podemos procurar o professor não apenas pela educação moral, mas também pelo conhecimento direto, pela busca de simples fatos. Ai de mim, já conheci pessoas cujo propósito, ao lerem romancistas franceses e russos, era aprender algo sobre a vida na “alegre Parrí” ou na “tristonha Rússia”. Enfim, e sobretudo, um grande escritor é sempre um grande mágico. E é aqui que chegamos à parte verdadeiramente fascinante, quando tentamos captar a magia individual da genialidade do autor, estudar seu estilo, suas fantasias, a forma de seus romances ou de seus poemas. As três facetas de um grande escritor — magia, história, ensinamento — tendem a se fundir numa única expressão de raro esplendor, desde que a magia da arte esteja presente na medula da história, na verdadeira essência do pensamento. Existem obras-primas cuja objetividade, clareza e organização do pensamento provocam em nós um profundo prazer artístico quase tão forte quanto o sentido num romance como Mansfield Park, ou como em qualquer rica explosão de metáforas sensuais de Dickens. Parece-me que uma boa fórmula para testar a qualidade de um romance é, durante a leitura, examinar a precisão da poesia, a intuição da ciência. Para conseguir penetrar nesta magia, o leitor inteligente lê o livro de um gênio não com o coração, nem tanto com o cérebro, mas com sua espinha — a sede do prazer artístico. É aí que ocorre o tão famoso “arrepio”. Mesmo assim, devemos nos manter um pouco distantes, um pouco afastados, quando lemos. Então, com um prazer que é tanto sensual, quanto intelectual, devemos observar o artista construindo o seu castelo de cartas e a transformação deste castelo numa bela construção de aço e vidro.

Tradução de Anna Maria Terra Magalhães, publicada originalmente no volume 5 da revista Oitenta, publicada no Inverno de 1981 pela L&PM Editores Ltda.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Defina 'ironia'.



"There's no point to any of this. It's all just a... a random lottery of meaningless tragedy and a series of near escapes. So I take pleasure in the details. You know... a Quarter-Pounder with cheese, those are good, the sky about ten minutes before it starts to rain, the moment where your laughter become a cackle... and I, I sit back and I smoke my Camel Straights and I ride my own melt."

Não acredito nisso, mas é algo que soa bacana de se dizer. Não bacana num sentido de exibição social, mas de autosatisfação. Quando você consegue pensar nestas coisas, nem que seja num momento de autocomiseração, parece que algo faz sentido neste ato de negar o sentido todos os sentidos existenciais. E quais seriam estes sentidos? A cada momento me parece algo diferente, às vezes é o conhecimento que pregava Aristóteles, às vezes é apenas o de chegar em casa para ouvir um disco, ficar feliz e dormir. A primeira vez que assisti o filme da onde retirei esta citação (se interessar, se chama 'Reality Bites') eu não sabia como interpretar aquelas andanças dos personagens, suas dúvidas e medos, mas achei bacana aquele carinha lendo Heidegger na cafeteria. Gosto de me ver como sendo intelectual parte do tempo em que circulo por aí, mas admito que algumas vezes o que me motiva são coisas bestas, e este filme me motivou a ler Heidegger. Hoje tenho um interesse autônomo pelo autor, bem como um interesse autônomo por este filme. E então vou conquistando minhas autonomias na vida, este grande roda cheia de pedras que vai girando e girando, e nos polindo, ou para muitos, apenas nos destruindo. Pensar em possibilidades metafísicas para ela pode ser uma salvação para continuar sorrindo todas as manhãs, não descarto esta atração pelo oculto, mas nos dias em que estou bem prefiro me fixar em coisas mais simples, como as que o Troy fala ali em cima. Não sei se vocês conseguem acompanhar o meu pensamento, mas o caso é que normalmente nos fixamos nas coisas por alguma besteira, uma atração, um desejo que poderá não se transformar numa vontade, ou somente pois temos que arrumar algo para fazer entre as 7 da manhã e o horário em que desmaiamos de sono na madrugada. Mas acredito de verdade na conquista da autonomia. E acreditando nisso, também acredito nas coisas verdadeiras, as que se fixam em ti, ou as que te pertencem sem que saibas. Se encarada de forma tola, esta autonomia pode ser apenas um romantismo ou sentimentalismo, mas passa longe disso, acredite em mim. Quando você tem o prazer de descobrir por baixo das aparências algo que te conecta forte com um outro algo, fora de você, seja um cuidado sincero de um parente, seja uma risada desconcertante de um romance, seja o brilho de saber que é aquilo mesmo que queres fazer, ou seja a negação de uma oportunidade fabulosa em troca de uma certeza de que está fazendo a coisa certa, este prazer será verdadeiramente teu, e então podes voltar ao teu quarteirão com queijo ou o teu cigarro que acaba. Tudo acaba. Tudo já acabou. Seja na lógica da doutrina cartesiana ou experiência direta dos fatos. O que você consegue postular é um passado, mesmo que este esteja ainda no seu futuro. Isso não quer dizer que não exista ainda. Somos um rio de potências e de vivências, e estamos correndo, e morrendo. Então eu vou cavalgar na minha minha própria mortificação e rezar para que exista um estatuto de limitações sobre incidentes embaraçosos. Então o resto será de satisfações plenas, mesmo nas tristezas cotidianas que serei obrigado a lidar, como sempre fui, e como sempre serei. E você também, meu caro leitor.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Missa em Dor Maior.



Kyrie
Eu fui levado pelo vento ou o vento por mim foi levado?
Mãos que acariciam o livro escolheram o destino errado.


Gloria
Mas quem sabe qualquer algo sobre qualquer coisa daqui?
Pulinhos no estômago já surgem pela espera sendo forjada.


Credo
O que sonham os poetas nos sonos carregados de febre e neblina?
Fantasiam a ligação secreta entre amantes latinos e a sintaxe do latim.


Sanctus
Tua alma no real acalmará as impossibilidades da ingratidão?
Vermelhas rosas invadem as lápides frias de futuros invernais.
(Benedictus) Oração final para a sublimação da dança eterna.


Agnus Dei
Santo! Santo! Santo! Sento solitário e sinto o sino que não soa.
Acabam todos nesta vida entretidos com a esmola da carne das perguntas sem fim?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Dichtung!



Dá a estética para à poética.
Não uma sem a outra,

Nem a outra sem a uma.
Mas sim — assim, A unidade.

n'liter aturas ser humano?

Ass.: Padre K. Goethe

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

estante jornal txt's e et cetera & talco.


Queda do interior derretendo em sombras diversas. Diversos focos de luzes emulando outras facetas de tua materialidade. Abismo entre os indivíduos que transitam por aí. Versos bíblicos berrados na chuva por um louco qualquer. Você já foi este louco que todos ploclam existir no amanhecer das ruas? Aquele momento da madrugada em que você começa a refletir sobre as cicatrizes do passado. Algo para acalmar os demônios do babalu. A lógica dos planetas refletida no que somos aqui e somente agora. Eternidade como medida de um momento específico. Todos os momentos são específicos disse ela enquanto se vestia. Invenções numa página de diário encontrada no lixo. Papel queimado na boca dos profetas do absurdo. Quebras de linhas mas não de pensamentos. Existe uma possibilidade real de comunicação? Quantitativo. No silêncio de uma casa de espelhos você encontra a verdade. Sentar e refletir um pouco pode ser o nosso destino. Encontro num café com direito a mãos que se desejam. Relatos apagados para ninguém mais descobrir aquilo que se revela somente na hora do aperto. Sufocadas pelas exigências as crianças se tornam adultas. Possibilidade e potência perdidas num ponto de ônibus. Algumas linhas ficções e outras linhas relatos sinceros. Poça de sangue na cama após o primeiro sexo. Cuidado para não derrubar a garrafa que se encontra no beiral. Sua vó deitada na cama ficando cada vez mais cinza. Fragmentos de humor involuntário nas manchetes dos jornais. Um político deposto por se tornar honesto. Podemos considerar como sinceras aquelas pessoas que mudam a essência do cotidiano como quem muda de chapéu no provador? Algumas coisas ditas não fazem o mínimo sentido. Marcha soldado cabeça de papel quem não marchar direito não precisa abaixar a cueca até os tornozelos. Paramos na esquina para ver se o coração bate um pouco menos desesperado. Este texto tem um sentido intrínseco tal como aquele sonho que me contaram do cara que imaginou estar casado com a garota mais feia da cidade. Qualitativo. Se letras fossem música eu agora estaria no ramo das aquarelas cinematográficas. Quem foi que parou o relógio pendurado na sala? Ela acha tão feio quando alguém pronuncia a palavra buceta. Filmes brasileiros sempre tem palavrões enquanto os americanos gostam de violência e todos nós desprezamos uma língua apaixonada lambendo uma orelhinha. Meu sonho quando criança era ser detetive. Ontem eu era lobo mas hoje eu sou um gato. Mamãe disse que titia nunca faltava a escola. Alguém fica bonito na 3x4? Quem leu até aqui merece um picolé cremoso. 89% disso tudo é falso e 35% é sobre amor. Quem despreza as estatísticas tem mais chances de nunca ter câncer na vida. Pensava deitado na cama em ouvir um disco do Velvet para embalar o carinho naquela mocinha especial. Jogaram fora os gibis mas esqueceram de pedir perdão pelas falhas apropositais de rotatividade. Na Terra é sempre assim!

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desculpas
para todos
que estão entre
a orquestra e os
camarotes pelas cantadas desafinadas mas
o rapaz que acompanha a nossa
banda de serenata com o violão
não tinha dinheiro para trocar as
cordas então tivemos que improvisar
com tesouras cirúrgicas e
lágrimas de crocodilo
três dois
um

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Facie.



Os homens que temem a permanência não notam que é graças a ela que ocorrem as verdadeiras mudanças.

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Os homens que temem as mudanças não percebem que é através delas que se chega ao que é permanente.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Trecho único de um conto inacabado (2009)


- Morrer é viajar em direção a algo que tu gosta de verdade, durante uma tempestade elétrica sem fim.
- O que tu quer dizer com isso?
- Nada. Eu só estava pensando em voz alta mesmo.

Encostou a cabeça entre os seios dela, e morreu ouvindo o seu coração.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Desenhado a lápis.


A noite escura, negra.
E a folha solta, branca.
Marcado grafite, cinza.
Este poema... incolor.

domingo, 12 de junho de 2011

Soneto de Jonas


Sinto-me tão triste, sinto-me tão vivo
Que com um sopro de meus negros pulmões
Eu sigo erguendo milhões de civilizações
Para destruí-las, e nas ruínas, eu me abrigo

Sinto-me tão triste, sinto-me tão vivo
Que me recordando do passado de atavios
Não receio vir a ser ente apenas de ressábios
Erros predestinados no instante perigo

Não sei se é direito meu este sentimento bravio
Mas não consigo mais notar as coisas assaz
Certas ou erradas, eu então apenas sento e olho

Sinto que reflito e algo se mostra, o Objetivo
Não quer me deixar de lado, então feraz
Sinto-me tão triste, sinto-me tão vivo

domingo, 22 de maio de 2011

Nada mesmo.



Sabe, sonhei que eu era um náufrago.
Isso, um náufrago, sabe?
Naquele momento em que tudo o que não importa
Some. Sabe?

E tudo aquilo que fica é o que é importante.
Estás ali, e tu se agarra no que dá, sabe?
Tu esquece dos outros,
O negócio é você contigo mesmo.

E claro que tu vai sentir falta dos outros,
Sabe? Claro que tu vai.
Mas eu sonhei que eu tava ali, e era aquilo.

O momento da minha morte, e o momento
Que eu soube quem eu era, sabe?
- Eu não sei. Eu não sei de nada, nada mesmo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Apóstrofo.

 
Rastejando entre as pessoas, quase ficas surdo com o choque dos homúnculos e dos anjos, aprisionados nestes corpos, alterando constantemente os seus papéis, sem esquecer que existe um universo todo dentro e fora de cada olhar em passos tristes voltando para casa.

Na ficção é mais fácil falar sobre o amor do que na fricção, o bloco de mármore pesa nas costas de todos os escritores de foto-novelas diárias, todos nós, macacos e cordeiros, se estamos vivos estamos fingindo, e se aceitamos isso, nos tornamos os seres mais honestos deste planeta.

Para existir algum julgamento moral é preciso do raciocínio, por isso gosto tanto dos bichinhos, eles não precisam ser honestos nem precisam esconder a suas mentiras, eles apenas estão ali, sentindo suaves seres corpóreos flutuando no espaço com suas patas e penas.

Não sabes aonde queres chegar, mas continua, que em algum momento algo vai aparecer para nos salvar, se vai ser uma bala ou uma iluminação, isso está na caderneta do destino. É nesta angústia que se fazem as mais rígidas ereções na vacuidade da mente e do corpo.

Quem poderá calar as lágrimas deste povo esquizofrênizado pelas sombras de algo que não existe mais, mas para aonde ainda levantamos as nossas mãos, aos gritos e orações, este povo que ainda nasce, cresce, reproduz e morre, este povo que habita o teu sangue?

Não sei aonde quero chegar, você não sabe quem eu sou, você só me vê passar por entre as pessoas, e o meu lodo se enrosca na tua asa, e a minha lira se cala com os teus ruídos, ouça, são estes os rangidos do futuro, e mortos ou vivos, escutamos surdos um suspiro profundo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

É mais fácil.


É mais fácil conseguir um cigarro do que 30 centavos pro ônibus
É mais fácil conseguir uma olhar raivoso do que um sorriso
É mais fácil conseguir uma discussão do que uma argumentação
É mais fácil conseguir uma trepada do que um amor
É mais fácil conseguir uma briga do que um perdão
É mais fácil conseguir um trago do que um suco para o teu filho
É mais fácil conseguir um escravo do que um amigo
É mais fácil conseguir uma morte do que uma vida
É mais fácil conseguir um ditador do que um mestre
É mais fácil conseguir uma arma do que um abraço
É mais fácil conseguir uma guerra do que A paz

Até quando nesta vida as pessoas irão querer apenas o mais fácil?
Mas no final dizem que nada se altera, e estas são apenas escolhas.

domingo, 3 de abril de 2011

U O! U Ó!


Um pão mofado em cima da mesa
Olhar faminto de quem se importa
Um clique do abrir da porta
Opta pelo ronco na barriga da cabeça
Uma mão que avança como se estivesse salva
Os dentes sujos que mastigam sem mais pudor
Uivo de animal alimentado pelo finalmente
Ócio amargo e orquestrado instinto de horror
Usurpado da seu antigo status social
Ouve as derrotas nas ruas, pelas esquinas
Ultrajado herdeiro de uma importante família
Óbvio que em outra hora ele não teve nenhuma sina
Ultimamente invade lares para conquistar o almoço
O que será que será dele e de todos
Uns por aí no futuro sem certezas, mas de
Olhos presentes nesta nova consciência
Uma que está chegando, berrando bem alto
Ouçam, é o mesmo mundo, mas são outras as pessoas
Um pão mofado será colocado em cima da mesa
Olha, faminto, e não mais se importa

quinta-feira, 3 de março de 2011

Plano sentimental.


Me encontre hoje a noite na esquina, vamos atear fogo no rio Tamisa, e depois pagar uma bebida para o guarda. Vamos roubar cigarros das lojas em construção, e vamos construir erros que nas histórias orais farão parte de nosso passado. Vamos engolir as pontes de Londres, e sintetizar tudo num cenário mastigados de blocos de construção e uma pitada leve de jazz. Meu amigo, me encontre hoje a noite na esquina, e vamos beber água até cair da escada tropeçando em nossas gravatas. Vamos cortar a garganta de velhinhas indefesas, e como agredecimento, vamos aceitar pedaços de torta e canecas de café com anilina lilás e canela em pó. Vamos subir nas pontes de traços que nunca foram demolidos, e vamos jogar lá de baixo para cima o futuro de nossa nação. Atenção, isso não é uma apologia ao crime, isso é uma reclamação escrita num guardanapo. Isso não é uma ligação depois da meia noite, é um sorriso discreto na boca de uma moça que se prostitui entre as bichas e os mulatos pois não tem nada para fazer entre a hora do jantar e a hora do café da manhã. Isso não é um poema, isso é a alegria do tédio, não apenas uma canção sem ritmo para dançarinos insones. Me encontre hoje a noite na esquina, e vamos rezar para Deus, ou seja, para ninguém além de nós mesmos. Me encontre hoje a noite na esquina, e eu não estarei mais por lá.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Shamans da pós-modernidade.


Andando de bicicleta imitando os barulhos de um motor se nota que a corrente elétrica de nossos músculos são mais potentes do que a combustão do combustível industrial.
O pulsar do coração é o que ergue as grandes nações, não as máquinas, não o barulho das máquinas, mas o caos de nossos pensamentos perdidos entre fraturas expostas e orgasmos da meia noite.
O clitóris inchado invade a história da maior das civilizações, o sangue dos indigenas tempera o prato sorvido sem pensar por barbas aparadas por lasers mortais.
As lâminas da verdade já não cortam mais as nossas veias; olhando para o futuro notasse o passado de nossas heranças genéticas.
Gravadores perdidos por aí reproduzindo discursos semânticos desgastados pelo mesmo tempo que se faz novo esta noite, aonde o céu estrelado é o mapa dos conquistadores do abismo.
Injetando o fluído amniótico dos lírios selvagens enxergamos o que nossas televisões não podem mais reproduzir. Não serão mais aceitas as imagens preparadas em nossos livros paradidáticos.
A didática da nova geração será escrita pelo o que é pensado agora nos livres murais pregados em zonas autônomas temporárias. As bombas não explodem mais, pois nós mesmos somos as bombas.
Se isso tudo não adiantar, se o anarquismo não adiantar, se o fascismo não adiantar, iremos morrer numa poça de utopias que ainda irão se de-existir.
Logo, quando pudermos sonhar novamente com uma realidade mais real do que esta que vendem nos anúncios das revistas dos imigrantes caçadores de carne apodrecidade de políticos do velho amanhã, nós preveremos o futuro, involuntariamente...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Maquinização.


Já fui o que
Hoje sou o que será descrito e
Meu outro será

No amanhã mais do que errado
Não devo nada mais pro passado
Sem poder olhar e me esquecer

E no ritmo das coisas
Dos acontecimentos constantes
Batidas me formam

Neste crepúsculo me perderei
Sem um selo marcado na língua
Com a contra marca da barra

Acordo entre os mortos
Nestas cidades sentimentais
Que com ferros transformam

Em meu respirar te sufoco
Egos de eros sem fim...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"Sociedade", com 's' de suicídio.


'Faça isso', ela me disse
Não faça aquilo, te faz mal

'Não fume isso', me encaram
Diga 'sim', com um sorriso no rosto

Chegue no horário
Escreva os Votos de casamento

Garrafas de cerveja pode
Hipocrisia só por trás dos panos

Cargo público, junte uma grana
Viaje para Paris, use camisinha

Proteção em primeiro lugar
Livros que te ensinam a viver

Abaixe o volume da TV
Não perca a nova novela das 8

Tenha o seu time, acredite no estado
Vá ao teatro, mas não faça perguntas

Veja os jornais
Não pense muito sobre isso

Tenha pensamentos positivos
Não acesse redes neurais proibidas

Reze para este Deus
Esqueça, você não é Deus

Coloque o dinheiro na máquina
Volte cedo para casa

Você não é mais jovem como pensa
Pague seus importos, tenha uma boa velhice

Não mate, coma carne de porco
Vegetais orgânicos custando a sua saúde

Trabalhe para adquirir a sua honestidade
Reclame dos políticos, faça a sua parte

Culpe a polícia, respeite a polícia
Seja a polícia, diferencie o bem do mal

Durma 8 horas todas as noites
Pague direitinho o seu plano de saúde

Aprenda a soletrar o seu nome
Honre a bandeira, não morra de fome

Compre já a sua cova e o seu caixão
Boa noite, é mais um amanhecer no ocidente

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O Declínio da Civilização Simbólica.


Hoje em dia nossa realidade se baseia no princípio do pragmatismo, somente depois contamos com a experiência e com a execução de algo que se pode catalogar como algo bom ou mal, e partindo daí se decide se algo vai seguir como permitido pela sociedade. O pragmatismo se caracteriza pela insistência nas consequências como maneira de caracterizar o verdadeiro significado das coisas.
Precisamos de uma reinterpretação de conceitos culturais e religiosos para chegar novamente na sua verdade. O símbologo do dinheiro, a silhueta de uma AK-47, e outros símbolos de poder hoje em dia são tratados como símbolos de culto, e isso por muitas razões. O dinheiro, o símbolo do cifrão move o mundo moderno, representa todo um sistema de transação de mercado, e as pessoas se matam por ele. A AK-47 é a arma mais eficiente jamais criada pelo ser humano, é responsável por mais mortes do que a bomba atômica, representando também o poder da modernidade. Precisamos criar uma rede subversiva que tenha uma mentalidade nova e não fundadas em cima de conceitos obsoletos para uma verdadeira compreensão da existência.
Mudanças movem o mundo, e estamos estagnados numa aceitação do cotidiano como se fosse a verdade. Precisamos de uma revolução que nos lembre que somos apenas seres primitivos. Precisamos de alquimistas do novo tempo, este que não podemos mais escapar, este que não será vencido pelo poder que símbolos humanos ganharam em nossas mentes.
Como seres primitivos precisamos contar com nossos instintos para a sobrevivência. O óbvio triunfa pois é sinal de proteção. O óbvio não faz apenas as pessoas correrem do que as faz pensar e questionar a mudança, o óbvio cria uma irmandade em cima do senso comum. Uma das funções que devemos encorajar a humanidade é do desenvolvimento de uma individualidade multi-dimensional, aonde os significados serão pessoais, em favor desta individualidade se voltar ao lado primitivo de nossa alma, e então alcançaremos a percepção do que realmente somos.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Estupidez com diploma na parede.

É sempre estranho falar para as pessoas que estou em mais um curso universitário sendo que eu me considero antiacadêmico. Normalmente acham que isso é papo furado, que eu digo só para me gabar do meu suposto avanço no mundo do conhecimento, da tão desejada akadémeia, lugar aonde você abre os olhos, vive experiências novas, tem os melhores anos da tua vida. Babaquice! A academia hoje em dia, na maioria dos casos, é só uma linha de produção para te colocar no mercado de trabalho, pelo menos em nosso país. Pago uma rodada de suco para quem me provar ao contrário.
Faculdade, lugar bonito, você não mora mais com os pais, você tem a liberdade para estudar como e quando quiser, você pode até sair da sala para mijar sem precisar pedir para a professora. É uma evolução, pois ali você está para aprender, não para servir de escravo para satisfazer professores babacas que sabem mais do que você, ou pelo menos acham que sabem, certo? Então por quais motivos você continua servindo de escravo para satisfazer professores babacas que sabem mais do que você (ou pelo menos acham que sabem)?
No templo da mediocridade, mentes ocas são preenchidas de excertos de textos, nunca das obras originais, na integra. Aprendem a pensar pelas cloacas sujas dos professores, não por suas próprias mentes. O seu pensamento não vale nada, pois você ainda é um aluno, não tem a capacidade de um mestrando. Ops, nem um mestrando vale algo, pois ele não tem as capacidades de um doutorando, de um doutor, de um doutor com vários anos de experiência, de um doutor que escreveu um livro que ninguém leu (e ninguém se importa, a não ser na hora de dizer ‘ele escreveu um livro’).
Na universidade se aprende política, viva os movimentos estudantis. Novamente, babaquice! Barbudos reproduzindo ideias antigas, achando que mudam algo, não mudam nada. Quer mudar algo numa universidade? Pense por você mesmo. Ninguém precisa de macacos marxistas honrando bandeiras do DCE. Saiu da faculdade, tudo continua igual. E ali dentro, você está pois assim te permitiram. O poder vigente não gosta daquele que pode ser um contrapoder. O poder gera um poder contrário bem pouco nocivo para dar aparência de tolerância, de abertura de espírito, de grandeza de alma. Mas ele não tolera aquele que não gerou. Um verdadeiro saber é crítico. E não me venham dizer que é melhor fazer algo do que não fazer nada. Movimento estudantil é o mesmo que fazer nada. Fazer algo? Comece por você mesmo.
E começar por você mesmo também vale na hora de aprender. Sempre digo, o melhor da universidade contemporânea normalmente é a sua biblioteca. Autodidatismo é o melhor comprometimento com a sua formação. Sim, existem professores que mantém este comprometimento também. É preciso se recordar que o essencial se encontra na relação do professor com seu aluno. Existem também lugares sérios. Mas tenho medo sempre que passam a contar mais papéis do que ideias na hora de julgar alguém. Tenho medo de lugares aonde o que importa são notas, regras, moralidade transvestida de método de ensino, de exigências acadêmicas, de facilitações no aprendimento. De um lugar aonde são rígidos com as coisas erradas, e displicentes com o que realmente importa: o ensino, a aprendizagem, a pesquisa e a troca de informações e pontos de vista.
Onde a retórica é confundida com a vaidade do ‘eu acho, eu cobro, eu indico’.  Deveríamos buscar proporcionar um saber exigente ao maior número possível de pessoas, de todas as origens, sem distinção de classe, religião, sexo, idade, formação, poder aquisitivo ou nível intelectual. E, ao mesmo tempo, permitir a construção de si mesmo como pessoa livre, independente e autônoma. É para isso que foi criada a academia, não para formar máquinas que reproduzem conhecimentos simplificados de forma eficiente para melhor se apresentar no espetáculo que dirigem aqui fora.