quarta-feira, 26 de maio de 2010

O suspirar das contrações.


Percebo como o terror está vencendo os bons sentimentos em nossa vida quando noto o quão natural e aceitável são as expressões de raiva, e ao mesmo tempo tão abusivas e assustadoras são as expressões de amor.
Se ao sentir saudades de um amigo os nossos olhos lacrimejam e nosso coração aperta, por qual motivo expressar isso é visto como um exagero, um sentimentalismo barato? Se ao nos apaixonarmos por alguém sentimos uma felicidade e um desejo que transforma esta experiência em maravilhas caleidoscópicas, por qual razão é somente visto como adequado expressar isso como se víssemos o outro por detrás de vidros puídos e embaçados, com receio de parecermos cafonas, ou acabar assustando o outro já ressabido destas "sinceridades".
Dizem que hoje em dia amar é clichê, mas o correto não seria pensar que dizer que "Eu te amo!", ao invés de ser clichê, é que é efetivamente um clichê?
Quando é que o amor virou o excesso, o tolo, o criminoso, o aleijão, e que o ódio virou o aceitável e o justificado? Temos medo da sinceridade, por isso é mais fácil aceitar a agressão do que a compreensão.
Temos medo do que sentimos, e mais medo do que sentem em relação a nós, pois estamos sendo constantemente bombardeados por mensagens que dizem que não devemos ser o que somos, mas sim devemos buscar ideais, padrões, herois...
Esquecemos então que somos perfeitos em nosso próprio 'eu', que somos nosso próprio Deus, e que temos capacidades extraordinárias sendo bloqueadas por estes filtros sociais que vivem dizendo que somos todos iguais, e se somos todos iguais como o próximo pode gostar de mim se eu mesmo não gosto?
"Sou fraco, me odeio, aceito o teu ódio, tenho medo do teu amor."
É triste que esta seja a sensação dominante nesta sociedade com tantas verdades e poucos sentimentos.
Seja o que bem expressas, pois assim não terás medo do teu belo reflexo nos olhos de quem te olha com carinho e atenção.

sábado, 1 de maio de 2010

Cello.


O homem senta, cello na posição, arco na mão, ambos prontos para deixarem os sons voarem. Lentamente as cordas são acariciadas pelo arco. Elas lamentam, vagarosamente e docemente excitadas. A mão toca o Cello, pressionando os pontos exatos para que ele gema de acordo com o que o músico planeja.

Deslizando os dedos para cima e para baixo, o cello explode em prazer, gritando em loucura à medida que o arco se move mais rápido, mais rápido... Não para de arranhar as cordas obscenamente. Uma delas arrebenta! Mas isso pouco importa, o cello nem ao menos sente. Continua soando belíssimamente aos ouvidos do músico. O êxtase erótico de tocar vai sobre todas as coisas.

Forte, mais forte, mais rápido... O cello está exausto... Todas as cordas estão rompidas agora... Nenhum som além do gerado pelo lascivo toque do exposto arco de madeira no corpo de carvalho do cello, desnudo de cordas.

Áspera madeira, lascas voando em um maníaco frenesi de luxúria.

Finalmente, serrado pela metade, o cello desfalece ao chão, morto combalido. Não mais gritantes Gavottes. Não mais pesarosas Sarabandes.

O pederasta está solitário, golpeando desesperadamente sua própria garganta com o arco, agora afiado e pontudo.