terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Uma tarde no museu.



- Pra mim tudo isso é a mesma coisa!
Disse uma garota bem vestida para a sua provável irmã, no MASP. Olhar de desprezo foi a minha primeira reação, mas com a cabeça cheia de ensinamentos budistas baratos vindos dos livros do Kerouac, pensei:
“Allen, perdoa, ela não sabe o que diz.”
Certo, que melhor forma de causar amor nos pseudos cults de internet do que começar um texto criticando a massa citando o cânone do contra-canônico?
Continuemos, pois esta é apenas a minha crônica 001 de uma revista virtual, nada especial.
- O que você vê aqui?
Poxa, moço, custa ler as plaquetinhas? Ir a eventos de arte se tornou um programa de luxo para familias de todas as rendas e classes sociais, mas a entrada não é franca, bem como as intenções deste pessoal. Arte é sentimento, expressão, experimentação. Pessoas bonitas no museu experimentando a agitada vida do flaneur cultural urbano. Compre o ticket, ache sentido raso na viagem, e no final não se esqueça das lembranças vendidas a preços módicos na lojinha perto da saída. Obrigado, volte sempre para conferir a velha exposição que você já esqueceu que viu.
Exibições de quadros, esculturas, vídeos, fotos… E de olhares entretidos na busca do belo naquilo em que disseram a eles que aquele tal artista famoso fez, e por isso deveria ser apreciado, nas galerias, locais aonde se tornam mais cultos, no shopping, para serem mais chiques. Tudo a mesma coisa para muitos. Bem vindos ao novo século, eis o fast-food das tardes de domingo. Só cabe ao povo escolher o sabor de seu próprio ópio.

domingo, 7 de novembro de 2010

O Bom Menino.


 O autor deve escrever sobre o universo, não sobre o que sente. Meto um punhal em meu coração e viro um personagem no momento em que o ônibus sai do terminal. Ouço a música de Psicose no fundo da cabeça, tocando por mil autofalantes surdos de vergonha. Nada de álcool, nem de qualquer outra substância para ativar o pensamento, apenas o estado nevrálgico de mais um dia salvo, mas até quando? Dizem que para o ansioso não existe 'amanhã' no dicionário, então como é que isso é o que mais me preocupa? Sem nenhum caminho para seguir, a não ser o que vou me perdendo, pouco a pouco, nos erros. Erros gerados por achar que sou invencível, invisível, improvável seria isso ser verdade, a improbabilidade se fere quando a morte espera a mesma no virar da esquina. Merda! Mais um dia que se vai, salvo, mas não são. Até quando?
Espero um pouco de paz, espero um pouco de vermelho, branco e preto, não é de Coca que sinto falta, seja ela qual for, é de um pouco de pureza, um pouco do passado, aquilo que o meu próprio monstro matou, escondendo o verde catarro (sim, eles fizeram disso um catarro) em baixo de um pano, foi ela, foi ela, mãe, foi ela. Quem mais teria sido?
Entre ligações para o disque-sexo e orações falsas, querendo apenas a redenção, o garoto chora na cama, mas não sai nenhuma lágrima. A lágrima só cai, sempre apenas caiu, por culpa de sentimentos feridos. É o medo do abandono. É o medo de esquecerem que ele existe, que ele está sangrando por dentro, que existem mais verdades do que até ele mesmo imagina, ele sabe disso, ele se esconde atrás das pálpebras, e o ônibus dobra mais uma rua. Pensamentos vagando, o coração aperta, pessoas paradas esperando, pessoas paradas embarcando, ele também embarca, é mais uma viagem, ele não sabe se está morrendo, ele não sabe o que será do amanhã, ele espera agora uma caneca de café, suor frio na madrugada, mais um pedido de redenção, caralho, como dói se masturbar com a bexiga cheia.
Lembranças da primeira vez, o pau crescendo na mão, o coração nervoso, a mesma sensação do bandido, a mesma sensação de quem fez algo de errado, pois está sempre fazendo algo de errado. Ele não tem nome, pode ser eu, pode ser você, os fatos não correspondem a realidade, e isso é o que menos importa. O sono caiu, e com ele o carniçal coração. Bem vindo ao mundo dos sonhos, menininho.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Do poder da hierarquia.


O poder da hierarquia tem conservado a humanidade da mesma forma que o álcool conserva o feto, impedindo tanto que ele cresça quanto a sua deterioração. Tenho uma proposta para todos que são contra a mistificação de um Deus (religiosos sensatos e humanistas, orientalistas, agnósticos, ateístas...), vamos começar acabando com esta mistificação em nossas vidas cotidianas, peço o fim da hierarquia, do papel do chefe.

Numa corporação temos os diversos níveis de funcionários, e numa escada se vai subindo até o papel supremo do dono da empresa. Se todos estão igualmente trabalhando, por quais motivos alguns recebem mais e outros menos? Ostentação de aparências.

Devemos desejar e lutar para viver, e o espetáculo da sociedade é a pior forma de negar a existência, vivemos para aparentar algo, não para ser algo. Quando se trabalha deve buscar fazer daquilo uma forma de apoio ao outro humano, começou assim. Uma pessoa que criava gado precisava se vestir, então dava o alimento em troca da roupas.

Para facilitar as trocas foi inventado o dinheiro, mas a ganância e a arrogância humana fez deste papel de troca uma forma dos ressentidos pelo fim da coroa possuírem uma nova forma de poder ser rei, e começou a exploração.

Como acabar com isso? Ideologias já tentaram tomar de assalto a nossa sociedade, mas bolei um plano mais sensato e que qualquer um (que tenha habilidades de administração) pode fazer para ajudar a cair o poder das hierarquias. Montemos empresas, aonde todo mundo recebe igual, o necessário para viver de forma saudável (alimentação, vestimenta, saúde e lazer).

Mas quem montou ela ficou em dívidas para investir na construção da empresa, não é justo ele receber mais? Afinal, ele é o dono das coisas, as pessoas não teriam onde trabalhar se não fosse ele, ele é bonzinho.

Até certo ponto sim, então que tal ele receber a mais até a 'dívida' estar quitada? Depois se torna um igual, e receber igual é a justiça.

E o lucro? O lucro (dinheiro que sobra das despesas e dos salários) é armazenado até ser o suficiente para abrir uma nova empresa, esta qual agora não terá investimento por parte de uma pessoa para ser montada, começando do zero com todos os funcionários recebendo igual, e mais lucro sendo gerado para montar novas empresas.

Em alguns anos, partindo de um investimento inicial único, podem-se montar diversas empresas, nos mais variados ramos de necessidades humanas, um aglomerado de empresas sem hierarquia de poder.

Conscientizando as pessoas sobre a missão da empresa, e trabalhando sempre pela qualidade dos produtos e serviços prestados, aos poucos as pessoas vão começar a preferir sempre do produto gerado sem exploração, falindo as empresas tradicionais.

Quanto mais pessoas tiverem esta visão, mais rápido a nova forma de negócio será espalhada, e o inimigo (homem ganancioso) terá que se juntar ao pensamento comunitário, ou será vencido. Esta é a minha proposta, mas ela pode ser melhorada.

Estas idéias são apenas o primeiro passo para um projeto que vai além disso, e tenta resgatar a vida da humanidade, acabar com esta rendição inconsciente ao mito, colocar brasas no chão para voltarmos à pratica da dança da existência, sagrar somente o poder inato de estar vivo.

Espero que este texto faça vocês pensarem, e se tivermos sorte uma pessoa (ou várias, esperemos que sim) com aquela habilidade de administração que citei terá acesso a esta idéia, e resolva colocar ela em prática. A teoria está dada, que deixe ela de ser apenas uma ideia perigosa, e que se torne uma ação na prática!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Indioteautorização.


não sei se quero mestrado
sei que não quero estado
também sei que quero ruptura

nesta falsa estrutura
que me rouba a vida
de forma dissimulada

falsa ajuda
falso saber

trabalhotrabalhotrabalho
quemetiraofoleg...



e quando (menos) vejo!

O FIM? TAAAAM DAAM!

domingo, 3 de outubro de 2010

Sistema nervoso.


A realidade, tudo em volta, em cima em baixo, tenta me destruir.
Se me conformo sou esmagado. Se me torno racional, ou seja, tento entender o exterior, ganho uma armadura para me proteger do realismo massacrante, mas fico preso dentro dela.
Somente se tento me entender, se me volto de dentro para fora, saio do meu ego, ganho forças para fazer valer a lei da ação e reação, e reajo, e faço o levante contra o real, e me torno agente que molda a realidade!
Vou explodir o espaço!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

"Absoluto" progressivamente.


Somos como tecidos
Puro linho branco
Sacudidos ao vento
Sopro do destino

Viver nos mancha a carne
Faço da experiência
O meu particular bordado
Traço fios de memória
Entre os recônditos da alma

Alguns me dizem
"Branco ou bordado
Tanto faz, tanto faz
Vamos todos desfiar
E morrer, fique em paz

Quero ser como um velhos
Um belos manto grego
Belo ao viver
Belo também ao morrer

Sabedoria é a minha beleza, queimar é o meu destino, quero definhar, desfiar, supotar o doce queimar e morrer,
mas belo, e traçado em fior de ouro e prata.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

João amava Teresa que amava João, no contemporâneo isso sim que é contracultura! (este é um título longo para um artigo curto)


Liberdade é um conceito que gera uma dificuldade de definição numa era de extremos como a nossa. Costuma se confundir muito os polos, e se assumir uma posição positivista em cima do que nos apraz em certos momentos.

Tentarei ser claro neste pequeno artigo sobre as relações amorosas entre humanos, começando por partir o que normalmente se situa como o contrário do ser livre, o ser dependente de contratos sociais.

Um contrato por base seria uma submissão a conceitos estabelecidos em comum acordo, quase visto como uma relação de posse. Costumamos estar entre a abertura e o trancafiamento. Que tal ver estes conceitos de forma mais ampla, como descomprometimento e zelo.

Quando se decide estar com alguém, buscar não ver esta compactuação como um estado de posse, mas sim como uma transcendência pessoal ao zelo a outro ser humano. Em termos mais práticos, monogamia não como posse, mas como aliança.

Contudo quando o homem situa o seu bem nos objetos externos, a imaginação "corrompe os cinco sentidos", e somos conduzidos a um estado hobbesiano de natureza, a um estado de competição culminando na guerra, o contrário do que se busca num bom relacionamento, baseado na confiança e na consciência do bem ao próximo.

Como defensor do egoísmo penso que esta virtude deve ser muito bem pontuada, pois às vezes algo que queremos leva algo que não queremos, e o dano poderá ser maior até para você mesmo.

Poderia se discutir as questões do desejos, mas qual o desejo maior, o de subverter o que se constrói, o palácio de cristal desta pequena entidade que se manifesta num suposto amor, ou a compreensão do próximo?

Desejamos mesmo algo, ou somos egoístas? Creio que muito se vê da segunda opção hoje em dia, mas eu como ser esperançoso na relação fiel ao outro gosto de fugir da descrença na cumplicidade, acreditando em liberdade sem traição, a liberdade mais suprema, aonde estás livre para estar com a outra pessoa.

No filme Magnólia temos o encerramento dado pela proposta 'se você quer estar comigo, esteja comigo'. Quando se forma uma aliança, mesmo não formalizada com alguém, se busca uma dedicação.

A destruição da posse seria justamente a liberdade, a liberdade de se prender em alguém. Somos racionais, a traição é puramente instintiva, queira chamar ela de sentimentos do momento ou desejos vinculados a um bem-estar. Neste caminho podemos defender o 'trair', mas também o 'assassinar'.

Quando se fere alguém, seja com uma traição sentimental, sexual ou apenas comportamental, perdemos o dom de sermos humanos, viramos oportunistas (por favor, não dêem peso a esta palavra aonde não existe peso nenhum, mas sim uma significação puramente ontológica).

Relações dependem de um limite, por mais ilimitadas que sejam, afinal, não podemos atravessar paredes sem destruir a sua base de alguma forma, e então novamente deixamos de ser humanos, e enquanto vivos infelizmente temos alguns limitadores, nem que seja a nossa paz de espírito, e acredito que quando se ama alguém, a nossa paz de espírito está diretamente relacionada com a paz de espírito do próximo, portanto o meu pedido não é nem reacionário, nem promíscuo.

Não venho aqui apresentar métodos a propôr-se um melhor relacionamento, apenas dar a minha visão sobre estas idéias, sendo, como o nome da coluna busca proscrever, culto e grosso (mas com afeto, este que defendo sempre).

Onde existe uma relação, ali ela existe para mim. A consciência é, em princípio, naturalmente, consciência do mundo consequente e sensível que nos rodeia, e consciência dos nexos limitados com outras pessoas e coisas, fora do indivíduo consciente de si mesmo.

Viva como quiser viver, mas não esqueça das alianças, estas que não datam posse, mas sim liberdade (esta que não é uma condição humana, mas uma busca constante nos momentos adequados, e um complacência ao inverso dela em outros).

Enquanto ser social, liberdade é algo que se conquista sem ferir o próximo, e neste caso o que os olhos não vêem, o coração uma hora irá sentir. Aprender a cuidar de quem se quer bem é algo difícil, mas não impossível.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Homicídio Culposo e Lesões Pneumáticas.

 Sometimes don't you just feel like killing someone?

Já não se mata mais de amor
Como tu matou-me um dia.

Eu, cadáver putrefactus
E uma caixa de cerveja.

Sentado à máquina da meia-noite
Batendo leros entre boleros
E teu perfume francês.

Buracos de bala
Em nossos momentos íntimos
De inverdades públicas.

Púberes desejos despertos
De velhos sonhos deste velho
Que agora dorme.

Assinatura tua
Nesta sangrenta balada.

No letreiro, a chamada:
'Já não se morre mais de amor'.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

En scena d'si enemas...


Amar é sair do cinema pensando em já voltar
Pela vontade de chamar a tua guria para ver aquela cena
Aquele diálogo
Aquele momento que te marcou
Durante a projeção.

É quando dividir a infecção do fotograma
Não se trata de uma opção
Mas sim uma necessidade tão grande
Quanto a necessidade de logo após a sessão
A levar para casa, e entre garrafas de vinho
Acariciar a sua alma e a sua vulva com ardor.

Amar não é aquilo que as figurinhas dizem
Nem sexo
Nem posse
Nem pose,
Mas sim um vírus que se manifesta entre os corpos apaixonados

E assim segue o compasso do nosso duo de jazz...

(dedicado a la blue sunflower.)

sábado, 17 de julho de 2010

Ser ou não ser.


Porque o mundo é palco, a vida é arte, e portanto não imitamos o Ismael Alberto Schonhorst, quando agimos da mesma forma que o Ismael Alberto Schonhorst, mas somos o Ismael Alberto Schonhorst . Imitar é ser. Eu, por exemplo, costumo imitar muito a minha própria pessoa, ou a pessoa que me habituei a pensar ser - que, vistas as coisas, não é mais que personagem -, o que acaba por se revelar tremendamente impertinente. As pessoas são infelizes porque não escolhem os melhores papéis. Acreditemos que qualquer papel está ao nosso alcance, que basta colocar a máscara, e que a máscara somos nós.

"Nada sou se não crio nada. O sentido da vida é a criação de coisas e momentos. Sejamos todos artistas!"
Ismael Alberto Schonhorst, o diletante...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Clarividência preneumonitórax.


- A morte só pode ser enganada num jogo de xadrez nos filmes.
- Falas isso pois desejas encontrar honrar na tua própria queda.

Andavam juntos há muitos anos, sem saber aonde era a morada do Destino.

- O que seria uma queda de honra para você?
- Não sei – disse para Ele – Como eu poderia saber?
- Achei que de por andares com todos os seres vivos eras o maior dos sábios.
- Sabedoria não é uma metodologia, por isso não consigo me expressar aos vivos.
- Entendo. Então a tua sabedoria não é uma verdade?
- Não te ouço sempre que falas em verdades.
- Não me escutas pois estás sempre longe.
- Não estou longe, você que assim me vê. Estou sempre andando contigo, e sabes disso.
- Tem até uma música sobre isso.
- Você sempre colocando cultura no meio de assuntos sérios.
- Minha filosofia também não é só uma metodologia.
- Isso é o que você pensa.
- Isso é a mais clara das minhas verdades.
- Verdades. Verdades. Você sempre preocupado com as verdades.
- E você sempre sendo cético.
- Não sou cético, só penso que depois de tanto tempo comigo deverias se preocupar menos com as coisas. Quando você vai aprender a pulsar? O que te deixa mudo, meu amigo?
- O que me deixa mudo é o medo.
- Mas dizes para todos que guardas o medo no bolso esquerdo de tua camisa.
- E não minto. Só omito que por maior controle que eu tenha sobre os meus inertes pertences, não consigo deixar de me afetar por eles, e você sabe, o bolso esquerdo de minha camisa fica logo em cima de meu coração, e tenho medo da beleza pois sou cego.
- Você tem certeza que é de dentro do teu peito que está a pulsar o teu coração enquanto caminhas?

Chronos não obteve uma resposta, Ele já não estava mais ali. Impossibilitado pela dor de olhar para baixo, cantarola uma velha canção de liberdade e esperança, e sai dançado na beira do abismo, pois a sabedoria que ali dança tem os seus passos ecoadas no vazio, por mais abafada que tentativa saia.

A beleza do momento faz os olhos de Chronos se fecharem às lágrimas da sinceridade experimentada nos segundos que precederam o seu próprio tropeçar.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

...melancólico poema erótico.


Personagens: Meus personagens interiores
Ação: jogando poker
Tempo: durante o amanhecer
Cena: à beirada de teu florido
Excitação: e pulsante abismo.

Enfio-te!
ofálicobocaldepromessasromânticas
d e u m a g a r r a f a d e v i n h o r o s é
por trás de teu sujo Coração Úmido
(engano, teu coração é solar.)

Apunhalo o teu gozo com minha lâmina de ciúmes presa ao cabo de madeira de nobres certezas pendentes do bolso que guarda o meu ...pausa para o autor trocar a sua posição... ego.

Qual personagem te ama?
Qual personagem te deseja?
Qual personagem chora agora que me abandonas (deixando apenas o cheiro das lembranças de tua flor no mastro deste...

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Separação de bens.


Ao sentar na mesa
Você tá na mesma
Você tá na mesa
Ao sentar na mesma
Mesa que te deu
A mesma mesa que
Te deu a paz da
Separação de bens.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O suspirar das contrações.


Percebo como o terror está vencendo os bons sentimentos em nossa vida quando noto o quão natural e aceitável são as expressões de raiva, e ao mesmo tempo tão abusivas e assustadoras são as expressões de amor.
Se ao sentir saudades de um amigo os nossos olhos lacrimejam e nosso coração aperta, por qual motivo expressar isso é visto como um exagero, um sentimentalismo barato? Se ao nos apaixonarmos por alguém sentimos uma felicidade e um desejo que transforma esta experiência em maravilhas caleidoscópicas, por qual razão é somente visto como adequado expressar isso como se víssemos o outro por detrás de vidros puídos e embaçados, com receio de parecermos cafonas, ou acabar assustando o outro já ressabido destas "sinceridades".
Dizem que hoje em dia amar é clichê, mas o correto não seria pensar que dizer que "Eu te amo!", ao invés de ser clichê, é que é efetivamente um clichê?
Quando é que o amor virou o excesso, o tolo, o criminoso, o aleijão, e que o ódio virou o aceitável e o justificado? Temos medo da sinceridade, por isso é mais fácil aceitar a agressão do que a compreensão.
Temos medo do que sentimos, e mais medo do que sentem em relação a nós, pois estamos sendo constantemente bombardeados por mensagens que dizem que não devemos ser o que somos, mas sim devemos buscar ideais, padrões, herois...
Esquecemos então que somos perfeitos em nosso próprio 'eu', que somos nosso próprio Deus, e que temos capacidades extraordinárias sendo bloqueadas por estes filtros sociais que vivem dizendo que somos todos iguais, e se somos todos iguais como o próximo pode gostar de mim se eu mesmo não gosto?
"Sou fraco, me odeio, aceito o teu ódio, tenho medo do teu amor."
É triste que esta seja a sensação dominante nesta sociedade com tantas verdades e poucos sentimentos.
Seja o que bem expressas, pois assim não terás medo do teu belo reflexo nos olhos de quem te olha com carinho e atenção.

sábado, 1 de maio de 2010

Cello.


O homem senta, cello na posição, arco na mão, ambos prontos para deixarem os sons voarem. Lentamente as cordas são acariciadas pelo arco. Elas lamentam, vagarosamente e docemente excitadas. A mão toca o Cello, pressionando os pontos exatos para que ele gema de acordo com o que o músico planeja.

Deslizando os dedos para cima e para baixo, o cello explode em prazer, gritando em loucura à medida que o arco se move mais rápido, mais rápido... Não para de arranhar as cordas obscenamente. Uma delas arrebenta! Mas isso pouco importa, o cello nem ao menos sente. Continua soando belíssimamente aos ouvidos do músico. O êxtase erótico de tocar vai sobre todas as coisas.

Forte, mais forte, mais rápido... O cello está exausto... Todas as cordas estão rompidas agora... Nenhum som além do gerado pelo lascivo toque do exposto arco de madeira no corpo de carvalho do cello, desnudo de cordas.

Áspera madeira, lascas voando em um maníaco frenesi de luxúria.

Finalmente, serrado pela metade, o cello desfalece ao chão, morto combalido. Não mais gritantes Gavottes. Não mais pesarosas Sarabandes.

O pederasta está solitário, golpeando desesperadamente sua própria garganta com o arco, agora afiado e pontudo.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Morangos maduros.


depois mordeu
morangos
maduros

fazia calor
na dormência
verde do mar

disse a si
ninguém vence
tróia sozinho

mas nada disso
fazia sentido
após as ondas

era possivel
que tudo fosse
apenas mentira

nessa travessia
cada palavra
é um risco

hora brilha
hora escurece

cada passo
cada sonho
um risco

sombra de sonho de vida
pensou mordendo
morangos maduros

sexta-feira, 12 de março de 2010

Ondas Cotidianas.


Cena 1.

A fúria e a raiva.
De um romance desafogado.
Em plena metade da linha
Do teu horizonte.
Não vê que sou eu que tu vê.
Mas não sou eu mais quem te vê.
Na volta?
Vejo ela, que era você.
Mas se afogava e foi salva.
Por aquele que não mais te vê.

Intervalo.

Muda de canal que está chato.
Ter que ver tanto comercial.
Muda de companheiro que está chato.
Ter que comercializar tantos beijos.

Cena 2.

Helicóptero decolando.
Todo mundo para e olha.
Ora, bolas.
Lá se vai um viajante.
Se fosse meu amor,
Chorarias.
Como não sou,
Só olhas.

Desliga.

Tanta coisa chata acontecendo no mundo.
Tanto mundo falso tropeçando nos cadarços.
Que desligo ele. Assim, desligo.
E então eu ligo a TV do meu coração.
Olá, Ilusão!

terça-feira, 9 de março de 2010

Para ti (e para todos).


       Há o amor
Não há o amor neste 'mundo'
      Eu não sou deste 'mundo'
  Me há o amor

              Há o desejo
         Há só o dexijo neste deserto 'mundo'
De certo há o desejo também no meu mundo deserto
      Me dás o desejo

                  Há o destino neste 'mundo'?
           Não há o destino
 Mas eu faço do caminho
                       o destino no meu mundo
                  Há o eu destino meu querendo
                converger com o teu destino você

 Há a sorte
 Há a sorte neste 'mundo' e no meu e no teu
 Mas se formos esperar pel
      a sorte
      a sorte não há,
                        há somente
      a sorte da cômoda conforta hora dos outros
      a sorte não tua, conforta cômoda em que
               apóia uma face que não aponta a pró
  pria sorte. Quero ver o teu destino, ser parte
                                 do teu desejo, ofertar a
                                ti o meu
                                      teu amor, ser para ti
                                                   um lance de
        sorte.



Ou vem lá? Os que esperam. Sem viver. Morre-se...

segunda-feira, 1 de março de 2010

Manifesto da Surr-Sub-Urgência Literária.


Escreva como quem cospe para cima, olhando os respingos cairem nos transeuntes, e levando o que restar na própria cara, transmutado em ouro.

Escreva como quem come uma buceta e propositalmente deixa o pau escapulir para o cu da moça.

Escreva como quem dança no centro uma canção mexicana vestido de africano, e falando em dialeto tupi-guaraná.

Escreva como quem anda rebolando uma bunda que não é sua, vomitando um pensamento que não é seu, chorando um amor que não te deu.

Escreva como quem come lentilhas no café da manhã, panquecas no almoço, e uma leve salada de pólvora no jantar.

Escreva como quem olha através do próprio umbigo, pois assim durante os saltos no trampolim da vida fica mais fácil de olhar por baixo da saia das garotas virgens.

Escreva como quem desistiu de escrever, e só quer aproveitar a água de coco e as sobras frescas.

Escreva como quem esqueça...

Esqueça! Foda-se sozinha, realidade. Renego-te! Prefiro transar com a outra, a vida, e a gozar.

E depois do ato, exijo o direito de escrever como quem escreve um conto erótico para um site vagabundo, para um leitor desatento achar as melhores partes e acabar de vez com a masturbação.

Escreva como quem descarta um lenço na pós-punheta.

Protesto textos descartáveis, só pela vida, pelo escrever, pelo expressar, a rebeldia no representar. Manifesto o texto que pulsa como a vida, e como a vida, sem créditos e pontuação, assim acaba

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Há! N' Anão.


Não há não para um anão que vive na Terra do Sim.

- Anão, mude pra Terra do Não.
- Há não lá?
- Há sim. Mas só pois estamos na Terra do Sim.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Mais T. Menos C.


Muita coisa! Pouco tempo?

Muita coisa? Pouco tempo.

Muita coisa. Pouco tempo! 

E cada vez tem mais coisas...
E cada vez tem menos tempo...

E cada vez muita coisa!
E cada tempo pouco menos...
E menos... mais... coisa... tempo...

E o tempo? Cadê as coisas?
Coisa que cadê! Que tempo! Menos...

Menos...
Mais...

E o tempo. E as coisas. E a exclamação. E a interrogação.

Só sei que cada vez tem mais coisas. Muitas coisas. E cada vez tem menos tempo. Pouco tempo.
Por isso te amo mais. Por isso rock'n'roll mais.
Por isso me preocupo menos. Por isso temos o blues, ao menos.
Te blues mais, que te amo, no pouco tempo que tenho, quero mais coisas, ao mesmo tempo, contigo.
Contigo mais coisas. Menos coisas. Mais tempos. Te respirar e só. Te transo e só. Conversamos e sóis.
E mais. Ter mais. Mais coisas. Menos tempo.





Muita coisa! Pouco tempo?

Muita coisa? Pouco tempo.

Muita coisa. Pouco tempo!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Entre os rins da esperança.


Sinto que estou me tornando maior
vida e conhecimento
lendo, experimentando, esperando e agindo
sempre crescendo, potenciais...

O problema disso é que quanto maior fico
maior fica também minha solidão
menor fica o meu preenchimento
preciso achar mais coisas para me completar

E as coisas não existem, não existem,
não existem, não existem, existem só palavras
reproduções de ideais que me completariam
idéias do que preciso, do que desejo.

Amor, momentos, risadas, motivos, mudanças,
choros, beijos, suor, viagens, textos, imagens,
movimento, sexo, bebida, comida, sussuros,
nascimento, expectativas, satisfação, morte.

Dizem que a única certeza da vida é a morte,
mas não creio nem que ela consiga me complementar
na verdade busco uma alma que me confronte
e confrontos que me venham com alma.

Cansei da minha poesia, quero sia, quero poe,
quero desfigurar as verdades, e quero uma só verdade
quero ser conservador e progressista, quero ser sim e não
sou brilhante carcaça, me falta somente a massa.

Boa noite, solidão!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Carnaval.


A tarde chega enforcando os minutos em contínua expressão desapercebida por todos os que já desistiram de tentar rascunhar o inefável tempo. Olhos ainda cansados das labaredas de cores carnais que jamais imaginariam encontrar entre as dobras rotas das rodas que movem a madrugada.

Madrugada esta que fora pervertida ao ter o seu silêncio quebrado não por poesias de baixas mas sim por encardidas vibrações estabelecidas como necessárias neste período. Falaram para o triste senhor que procurava um sentido nisso tudo que este sentido estava no desapego que só chega para quem se entrega aos membranofones.

Mesmo depois do desassossegado sono estas palavras ainda não fazem sentido para os que, como o senhor experiência, se encontram descorados sentimentais durante esta tarde de verão.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Fases.


A face de antes.

A face de fotos. De expectativas. De visões. A face de imaginação. Suposições. Irrealidade. A face que mente. A face sem mente. A mente sem face. As palavras sem face. A face sem boca. A boca sem palavras.

A fascinante face.

A face que olha. Que investiga. Que espera. Que começa a ter palavras. Que tem boca. Boca com palavras. E a mente. A face que não mente. A mente que espiritualiza a face. O corpo que complementa a face.

A face doravante.

A face que se espera. A face que espera. As palavras que podem existir. A boca que complementa as palavras. O corpo que se espera. A face que dita o corpo. A mente que se quer ter sempre em face.

A face de antes. A fascinante face. A face doravante.

A face.

A face que vira texto. Que queima o texto. O texto que queima. O queimar da espera. Da esperança. Dos desejos. Das possibilidades. O texto que é queimado por isso tudo, e sai para queimar o mundo.

Em face (mentira? verdade?) vos digo - queime o mundo! - mas não queime a face. Pois a face... Ah! A face é fascinante, tanto quanto se esperava, quanto será, se possível, sempre que se esperar a face na minha face, doravante!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A Toca do Coelho.


[é sobre desejo. e sobre estar sem encontrar limites dentro de minhas formas. é sobre medo da solidão. é sobre se notar solitário e essa é uma verdade. e sobre encarar o desejo como se fosse uma figura clara à sua frente. e sobre perceber que um dia na sacada com o vento frio batendo e aquela aura de veludo aquela pele que só pode ser sentida queimando dentro de mim mesmo. e sobre aquele momento ser o mais belo. e eu me sentir aquele momento sabendo que não chego nem aos pés do que esta outra alma já é. e sobre esta ser apenas uma das verdades da noite. eu já fui as estrelas e me vi como buda, dois momentos diferentes entre tantos outros que estão alternando, uns mais fortes, outros mais fracos. no final eu me componho destas múltiplas personalidades que vou expressando em ritmo mais acelerado que um Corvette vermelho pela madrugada. eu me sinto como um cantor de jazz querendo saltar pela janela e meus dentes disformes se enegrecem na madrugada e na armação de meus óculos blues. e já estou em volta de uma canção divertida. vou me deitar mais uma vez para ver até onde vou chegar!]

Depois de ler este ensaio insolubre sobre o nada, Truman Capote virou para a repórter que ali esperava uma resposta, e esta foi:

- Isso não é literatura. Não é nem ao menos datilografia, como acusei meu caro Kerouac. É delírio de um vagabundo que se acha mais um bêbado iluminado não pelo álcool que não tomou, mas pela existência que lhe foi dada sem perguntar, e esta o fascina, por que não?

E o mais engraçado nisso tudo é que sou eu redigindo isso, e sou eu sabendo que Capote e Kerouac e [ ]'s e até mesmo este 'eu' que agora me explicito, sabemos disso tudo. Estou sentado numa roda comigo mesmo e eu me encaro sobre os diversos ângulos dos outros 'eu''s me encarando. Eis o tal ciclo?





desisto!


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Um cérebro cansado bebe o sono em altas dosagens irremediáveis. Quando percebe está acordado novamente, em outro lugar, com outras companhias. É Morfeus que agora te regala com piadas infernais e um índio nu te fala das belezas do céu da tua mente.

Acorda.

...é um novo dia aqui no mundo?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

E o 'u'?



Eu quero eu ver eu o puto eu ser eu poeta eu aos 22. Eu

quanto mais subjetivo e obscuro, melhor; até para mim,
disse o Judas
Minha poesia é um atraso de morte

Pois quanto mais eu leio

                       e vivo

                                        Mais eu
percebo

que       o           mundo            anda             careeeeee-
eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeta

Carente.

Eu                               e                           vocês
                               amigos.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Requïrere desideratos.



Crânios humanos, semi-serrados
Para fazer sopa de letrinhas

Vulvas mimeticamente excitadas
Para bater um papo cabeça

Corações entrecortados de honra
E coragem em simples V.

Dedos seculares em cetros rijos
De miséria e fome
Tesas formas rasgadas

Uvas sendo esmagadas e bebidas
E mijadas quase que instantaneamente
Sem zelo

Tempo sonhando ao contrário, assim
O veneno não é expurgado

Ascende com os meus desejos a vocês

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Tantra.



Serei a nuvem que passa
A cidade vista de cima
Quero molhar as tuas páginas
Sentir a tua língua
Sendo tinta que reproduz a sensação
Da sensação que eu tenho
Ao vislumbrar a excitante idéia de sermos
Um só no penetrar bandido de
Nossos corpos em chamas e fumaça,
Que vira nuvens
Carbono-Nitrogênio-Oxigênio
E passa...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Toxicidades.


Me intoxico com as tristezas que me destinaram desde que foi decidido que eu seria parte do constante ciclo de dualistas que em suas certezas de terem vindo ao mundo para o salvar ficam se culpando pelos prazeres que não desistem de buscar.

Me intoxico com as lágrimas decorrentes de karma gerado pelas tenebres e angustiantes dúvidas que insisto em cultivar decorrentes das belezas que no coração de outra pessoa busco tentar me completar e mal sucedido nestes acasos constantes me interrogo se capaz de legar mesmo doce áurea de uma vida impoluta de fazer tudo que se exige a um homem fazer.

Me intoxico com as horas de pouco sono de pouco amores de muitas dores de muito jazz de pouco doce de muito amargo de desejoso ácido de cores cinzas de lembranças vívidas de prazer negados de sabores rejeitados de delusões de não estar aqui acompanhado.

Me intoxico tanto que não sei mais o que motiva meus olhos a ficarem vermelhos como estão agora refletidos em um espelho que não busco mais limpar já que esconder a minha face da verdade me parece uma alternativa tão bem vinda mas ao mesmo tempo sei que seria apenas falsidade e disso quero me resguardar.

Me intoxico com a vida que ainda mantenho dentro de mim enquanto saudo os diversos que como eu também sofreram e transformaram em poesias estes sofrimentos que reverberam em nossa existência como loucos fora dos hospícios oficializados por estes seres sãos que habitam as ruas e dominam o pensamento uno afirmando que somos legados a viver como zumbis e nos julgam pelos nossos sentimentos incertos.

Me intoxico com o vazio de minha alma que tenta preencher com um espírito selvagem resgatado do sangue de guerreiros do passado e de suas transmutantes representações de animais selvagens que uivam para exaltar os seus instintos misturadas ao raciocínio que no presente me causa todas estas fluições de agressões ao que no fundo acredito ser belo e verdadeiro.

Me intoxico com o ar que respiro em busca de uma vaga compreensão do que sou além destas palavras sem sentido que vomito fingindo estar contente ou triste ou fingindo que sinto alguma coisa além de algo que no momento só mais me intoxica mas espero que algum dia me leve em rumo de uma boa temperança.

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[Addendum ao texto original]

Me intoxico com desculpas pelos males causados.
Me intoxico com agradecimentos pelos momentos gerados.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Das reais verdades.


"Manter junto a marca do passado e o projeto futuro, se permitir fazer sem esquecer aquilo que se pretendia fazer, tornar-se sem deixar de ser, ser sem deixar de tornar-se." Homero.

Se existe alguma verdade neste mundo, a prova se faria pela inconstância. Se virmos a verdade como imaculada sobre certo prisma, mas a rejeitamos ou simplesmente encaramos as mudanças periféricas de tal verdade e neste encarar se cede ao humano e certo medo, dando as costas para ele em vez de olharmos de frente como meta de conquista, se assim, nós mesmos rechaçamos esta verdade.
O absoluto é utópico, porém uma verdade não pode ser dependente de outros fatores para ser forte por si só. Uma verdade, independentemente de seus motivos ou natureza, vinga o espaço e o tempo, pois estes são conceitos humanos e uma verdade, mesmo quando humanamente percebida, haverá de se manter livre certas intermitências não caracterizáveis, sendo então concreta e bastando isso apenas (para ela e apenas nela).
Portanto mudanças de bom grado são, além de inevitáveis, também bem vindas. São elas que irão legitimar as verdades.
Falando ao homem eu digo; seja aberto para a vida como um todo. Ser aberto não é engrandecer o ego individual, mas sim buscar a liberdade. O sábio ser livre não é auto-suficiente ou solitário, pois sabedoria necessita de um além-do-ser para que se funcionalize, bem como o homem que tem conhecimento precisa dividir este conhecimento para que ele se valorize. O ser livre é nobre e justo para si de igual forma que é fiel e confiável para os outros, mantendo assim um equilíbrio do que realmente é com o que representa, não se tratando esta representação de algo forçada ou interessada, mas sim a forma em que as suas ligações a uma ou mais pessoas serão desenvolvida, honestamente.
As intemperanças tais como o desejo, a avareza, a traição, a desonra e outras, irão surgir, mas um homem de verdades busca no segundo presente a cura para o segundo seguinte. O homem de verdades é firme como uma montanha e complexo como o que a constitui, por isso não existem desculpas válidas o suficiente para o que não consegue controlar a si mesmo. Acidentes podem acontecer a uma montanha, mas ela continuará firme em seu máximo possível, pois uma montanha é honrada e carrega a sabedoria de sua existência.
Teu maior aliado em certas vezes será a memória, tanto a passada com suas aprendizagens, como a futura com os seus objetivos de caminho.
Nisso tudo lute pelas verdades, não agindo por elas, mas as mimetizando em ti, mantendo postura firme sempre que desafiado. Se elas forem mesmo verdades certo que manterás as suas bases rígidas naturalmente.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ao toque de teus líricos lábios.


- Podemos começar?
- Podemos.
- Nome.
- Tu já sabes.
- Certo. Idade.
- Me darás uma logo após a entrevista baseado no que achares de mim.
- Não deveria deixar passar, mas mais uma vez, certo. Profissão.
- Humano.
- Digo, a profissão que você atua.
- Sim, sou humano. Ser humano. Sou um ser humano.
- Você não é poeta?
- Eu era poeta. Eu achava que era poeta. Agora sou apenas uma farsa. Desde a primeira vez que vi uma jovem moça se masturbando em minha frente, pessoalmente, deixei de me considerar poeta. O que estas jovens fazem com seus delicados dedos para as nossas almas é poesia. Meus textos não são poesia, não tem a beleza deste citado ato, não tem o ritmo, não tem a paixão. Siririca. Isso é poesia. O cheiro. O som. A imagem. A reação que tenho. Estas belas que vejo nas ruas todos os dias. O que elas causam em nós é poesia. Meus textos são farsas, eu sou um farsante, como todos os humanos. Anote aí. Profissão? Ser humano.
- Assim você dificulta meu trabalho.
- Qual o seu trabalho?
- Jornalista oras. Estou te entrevistando, não estou?
- Não.
- Não estou?
- Estás preenchendo campos.
- Sim, é o começo da entrevista. Preciso dos seus dados. Preciso saber quem você é.
- Meus dados não dizem quem eu sou.
- Não foi isso que eu quis dizer.
- Então seja mais clara.
- Você... Eu... Eu estou tentando... Ahn, esquece. Posso continuar?
- Pode.
- Quando você começou no campo da poesia?
- Quando era pequeno. Meu pai me disse que iamos para um local conhecer algumas pessoas que me ensinariam um pouco mais sobre a vida. Cheguei lá e vi belas mulheres nuas. Nesta noite que comecei no campo da poesia.
- Não entendi.
- Tu não queria saber quando me envolvi em um processo poético pela primeira vez?
- O senhor é muito tarado.
- E a senhora foi indicada para entrevistar o cara errado.
- Primeiro lugar, não sou senhora. Segundo lugar, o senhor não é o autor destes vários livros que ganharam prêmios e prêmios mundo a fora?
- Sou.
- Então, como estou entrevistando o cara errado?
- Eu sou o cara certo se prêmios é o que te interessa, mas sou o cara errado se falar sobre prêmios é o que te interessa.
- Sobre o que você gostaria de falar então?
- Não sei. Topas me ajudar a completar uma nova poesia que estou imaginando a composição desde que tu entrou nesta sala?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Escrita em D menor.


São 5 horas da manhã. Estou pensativo desde às 19 horas de ontem. Levanto da cama neste horário, que é um dos que mais gosto, quando a noite ameaça ir embora e a insônia já cansou de debochar de mim... agora apenas me observa do beiral da janela, com seu cigarro acesso e perguntando se posso lhe servir mais um copo de whisky. Respondo que o meu já secou há quase hora e que ela se vire. Esta é a hora que mais gosto, pois sou eu que debocho da insônia, vindo aqui escrever uma carta aberta a todas as testemunhas de minha persona non grata.

A noite está bela, vejam vocês que agora dormem e perdem este céu negro. Vocês que, deitados com um manto de lã, esquecem do manto lá fora, da pérola negra, da bela madrugada, da lua cheia e excitada que me causa espasmos temporários. Sou amante da lua, já que é o corpo celeste que mais bem me recebe nesta hora solitária. Choveu ontem. Acabei de dar uma olhada na rua ainda molhada e brilhante, refletindo a luz da minha amada esperança no dia que logo chega para abrir os olhos repousados dos outros, enquanto vou descansar os meus. Quero mais uma vez amanhã olhar para esta paisagem lá fora, e assim me tranquilizar com esta natureza que sou eu e é você e por isso é linda. Minha mente novamente se confunde, esta não é uma carta para ninguém. Nova linha, continuo.

Não há cantos em parte algum, tudo está arredondado, suave e imaculado. Não existem formas, existem idéias, existe beleza, existem minhas percepções do tempo e espaço, existem meus sentimentos, existe meu quarto arrumado para o quarto de carne da alma que não vem, existem meus aparelhos eletrônicos expulsando sonoras combinações perfeitamente, existe comida na cozinha, existe saúde em meu corpo e em minha voz, quando brindo mais um copo à simples existência minha e tua, e sinto, pelo menos por hora, que sou o mais sortudo e satisfeito homem do mundo.

Se você estivesse aqui, iríamos beber e nos deitar embaixo do sopro pretenso refrescante do meu ventilador de teto, para olhar lá fora e ver as luzes da rua se apagando, as luzes da natureza se acendendo, as nossas luzes recompostas de fogos possíveis... gerados pela razão de todos os desejos mundanos e todos os momentos bem aproveitados e todos os momentos desperdiçados e compensados com o toque de línguas e dentes e mágoas e amores e passado, que não passa de uma ficção em nossos diários mundanos. Oh pérola, oh prata, oh carne rosada e enviesada que não está aqui ao toque de meus dedos trépidos. Que em certo ponto da cidade o masturbador contínuo se esconde atrás das sombras, a desejar a possibilidade que aqui mantenho como um segredo em meu baú de jóias, a possibilidade que não usufruo agora sem nem saber o real motivo, a possibilidade que me é negada e que motivou há horas os pedantes monstros que me habitam, os vermes que insisto em esconder nas paredes de meu crânio, que cheio de vinho poderia alegrar os passados soldados da justiça. Onde está a justiça em meu caso, se não nas lembranças que me assolam no passar das horas?

Já que meu desejo é impossível neste momento, vou escrever. Primeiro vou dizer algo que nos envergonharia muito, se eu o falasse. Isolado das pessoas, ultimamente tenho tido tempo para observar as suas reações às questões atuais e vi muitos se traírem, vi muitos fracassarem em provas decentes de conduta. Alguns, meus amigos. E eu os descartei sem dó, como a unha cortada e não tive sensação de perda nesse processo. Esta é uma carta sobre tudo e sobre todos, para tudo e para todos. É uma carta travestida em meus receios a ti criatura errante, mas é uma carta de falo tão prepotente que irá subjugar a todos que me visitarem nesta madrugada. E mais uma vez, nova linha, continuo.

Durante toda essa minha experiência inédita e interessante, meu respeito por alguns se intensificou e minha afeição se tornou mais profunda. Boas intenções que se revestem em reais motivações sempre me aquecem e fazem brotar das sementes que plantei no passado, esperando nascer belos olhos em cachos e estes apontados para pessoas melhores, se não em ações imediatas, mas em chamas que brotam dos ventríloquos cardíacos rebeldes, revoltos destes mesmos que acompanho e me fazem engolir a seco diariamente. Você, que muda sua atitude ou pelo menos as suas preciosas metas de melhoras para o futuro em relação a mim e a outros e à vida em si mesma. Você que tem a disposição em apoiar a opinião alheia qualquer que ela seja, desde que não prejudique outrem, mesmo ao discordar dela. Por seu senso pessoal de ultraje, diante dos que negam este direito. Diante dos que dizem que é errado pensar algo. Diante dos que dizem que você não conseguirá ser melhor do que já é. Você que erra, mas sabe que erra, aponta seu próprio erro, e erra novamente ao mudar, mas sabe que não será sempre assim e sabe que amanhã você conseguirá, e amanhã ao errar, vai novamente buscar a melhora, e aí então conseguirá o que tanto deseja. Errando claro, pois todos erramos ao achar que sabemos o que é melhor para nós mesmos, além de sermos nós mesmos e tentarmos nos unir em um só, e esta é a face do amor. Ah, o amor. Mais isso fica para outra carta, pois agora é hora da velha conhecida nova linha, continuo.

Todas estas minhas idéias impressas para ti que sabe e para ti que não sabe, tudo isso, e tudo aquilo faz homens e sociedade decentes, e por homens digo os que carregam órgãos reprodutores masculinos e os que carregam órgãos reprodutores femininos, maldita língua, malditas palavras, maldita necessidade de expressão que tanto idolatro. Busco mais um copo. Menti que havia acabado a bebida. Menti pois não queria entrar mais uma vez nesta idéia da prisão do escritor, eu que nem sou escritor e que nem sou amante, mas ao fingir ambos sou sincero com o que sinto aqui dentro, e agora é hora de mais um jorro de amores e palavras de um amante escritor que não se cala, não se cala, não se cala...

Toquem uma sinfonia para sobrepor a canção que toca em meu coração, que chora de saudades de uma alma como a minha que repousa em outro canto disso que chamam de Terra, e também sorri mais uma vez. A madrugada ainda não acabou, então escutem que tenho mais para falar. Sim, ouço a sinfonia desejada, e ela vai servir de trilha incidental para o próximo trecho de minhas contemplações. Contemplo amanhã levantar para um dia de trabalho, eu arrumo o que fazer, mas não sei se gosto do que faço. Não pela definição do que faço, mas por não sentir que estou explodindo cosmos com as ondas que projeto em pensamentos, sempre que penso em meu potencial. Não me chamem de arrogante, estou pensando também no seu potencial, caro leitor. Você é um charlatão ou também acredita no que poderia fazer neste momento. O que você está fazendo neste momento? Eu, neste momento que estás me lendo possivelmente estou à toa. Fico à toa muito tempo. Ando por aí e incomodo as pessoas e sonho com o dia em que me desprenderei de tudo. Estou impaciente para algo acontecer, bom, ruim ou indiferente. Quero me mudar para algum lugar. Acho que podíamos viver bem e ficar ricos no México, não é? Estou disposto a ir a qualquer lugar em que eu viva, talvez não em paz, mas com luxo em minhas próprias definições de luxo. Se eu pudesse passar os próximos dez anos na Cidade do México, ganhar o suficiente para poder brindar todas as noites com pessoas que quero ao meu lado, nada improvável, e assim pagando impostos mexicanos e guardando parte do dinheiro, eu iria na hora. Quero viajar. Quero morar em Cuernavaca. Quero deixar de pensar em tristezas. Quero somente pensar no meu custo de vida, posições sexuais, ideologias frenéticas, na saúde de meu fígado, em páginas marcadas, películas, fotogramas, imagens sem sentido, letras, pensar no nada, na vida, em você, no futuro belo que existirá, nas flores, no cheiro de uma nova descoberta, no almoço, nas palavras ditas sinceramente em meu ouvido, nas crianças, nos olhares que te darei, nas danças festivas, no fim do ano, no começo do ano, na despedida, no retorno, na minha família, nos amores perdidos, nas verdades que aprendi com o passar dos anos e na Virgem de Guadalupe. Se eu pudesse pensar nisso tudo, iria agora para o México. Mas a madrugada está chegando ao fim. Pouco tempo para acabar meu raciocínio ilógico.

Não acredito mais que sei mais do que qualquer outro. Não acredito mais que sei menos do que qualquer outro. Naturalmente, quero descobrir o que sei e o que não sei e compartilhar as descobertas com vocês. Mando lembranças, misericórdia, fraternidade e comiseração. O mímico agora descansa, não prometendo nada para não assustar os que buscam algo nestas manifestações de um alguém, que de tanto querer o bem, acaba sendo confundido com o coadjuvante sagaz de um romance barato, que se vende na esquina. Sombreros e maracas e tiaras aos que forem me encontrar no México. Verdades aos que aceitarem beber de minhas vísceras. Amores aos que buscarem aprender algo e se contentarem com este professor tolo. São 6 horas da manhã. Adeus estranhos.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Morte.


Dirigindo na madrugada
Cálida pelas janelas do carro
Entram estrelas que viram
Faróis, nos meus olhos nuvens
Se transmutam em
Continentes.

Dos céus monstros sopram
Gelado transpiram abafadas
Grandezas teus poros sangram
Belezas...

...belezas palpitam em meu
Coração.

E então percebo que perto
Disso sou o nada e percebo que
Ainda tenho muita estrada
Que em linha reta avanço
Território em linha reta avanço
Vida.



"A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por dissolver-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do inditoso. Entre os Imortais, ao contrário, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outro que no passado o antecederam…"
- Jorge Luis Borges

sábado, 2 de janeiro de 2010

Um deserto qualquer.


Por horas esqueço das formas que vão ao além na realidade. Nelas vejo apenas a mesma, o pó e somente a poeira desde deserto que estou. Viajante mas não solitário, abandonei meus medos e só o pó vejo há horas.
E estão escuto, ela ao meu lado suspira enquanto piso um pouco menos fundo. E ela ao fundo sonha. Se vejo os fragmentos do deserto, ela vê as areias de Morpheus, e pergunta:
- A quem eu devo?
Não deves a ninguém amor. Mas só penso. E ela só resona. Mais duas horas para a próxima cidade. Estamos na europa de nossas vidas, e o sol já logo nasce.
Ela treme. Éramos para o futuro apenas um escasso e estranho presente. Deveriamos estar sorrindo. De prêmio além da grana a liberdade, mas quem devine a liberdade? E então ela vai do fel ao pesadelo.
Paro o carro. A bela tem um susto em sua onírica face de quem adormece. Quero dar de presente para ela o meu toque e o sol. Me abaixo e beijo suas pálpebras. Para os egípcios os olhos eram a janela da alma. Para mim estes leves beijares se conjugam em forma de acalentadoras afeições, um acalmar para a sua alma irrequieta. Entro por estas janelas e aliso os arrepios do ser que tão belo me parece nela. Ela acorda.
Percebo, e ela sabe, por isso mesmo continua de olhos fechados, convite para a passagem do etéreo ao físico, deixo os olhos e beijo a boca, que estando ao contrário me vira os quereres. A quero e a tenho, mas não a mantenho. Espero que ela se mantenha em mim. Enquanto beijo os olhos cansado, abrem. Os dela e os do sol.
Pulo para fora do carro e dança na europa de nossas vidas. Ela me acompanha por certo tempo, mas logo cai sobre o capô. Caio junto e fecho os olhos. E então acordo em meus sonhos. Mais duas horas para a próxima cidade ela diz.