sábado, 21 de novembro de 2009

TEXTO PARA SER LIDO EM VOZ ALTA, VELOCIDADE RÁPIDA, SEM PARAR, SEM RESPIRAR, SEM PENSAR, SÓ A SENTIR MINHA LÍNGUA ESTALANDO ESTAS PALAVRAS DIRETAMENTE NO ESTRIBO DO TEU OUVIDO.


Vamos ser artistas em Nova York
Tocar guitarra faltando cordas em Seattle
Brincar de Guilherme Tell no Mississippi
E Bonnie & Clyde seremos então de fato.

Vamos para Paris, Suíça, Zaire
Se me permites te levo hoje para a Bielorrússia
E amanhã estamos de volta para o café da manhã
Aqui em casa, já pensou, amoras e geléias especiais.

Aonde está a rima em viajar para a Grã-Bretanha?
No Tibet já estivemos, em sonho claro, mas...
Santa Lúcia, Porto Rico, México, Chile
Lugares iguais para estarmos igualmente à lugares.

E cântaros, e teus lábios, e teu dorso, e meus dedos
E nossos mapas, vamos ser artistas em Berlin
Linda garota, não de Berlin, mas daqui e ali
E qualquer lugar, vamos ser poetas hoje à noite?

E vamos cair na estrada, e vamos cair na cama
Sonhar, depois de acordar, de mais que mais?
Sei lá, vamos viajar para outro lugar, só diga
Vamos - que eu te levo para lá, só diga Vamos.

Então vamos, então venha e traga teus lábios
Traga teu sorriso. Traga teu abraço. Traga teu desejo
E também traga os teus medos para que eu possa te salvar
Mas não traga o que me estraga, que é teu desprezo.

Mudei minha cabeça de lugar, estou ali, enquanto me olhas
Aqui, e mesmo que por vezes pareça meu reflexo, sem nexo
Digo, vamos ser artistas em Nova York, mas ser artistas
Aonde estamos, aqui e agora, vamos?

[quadro pintado por ti: assinado por 'eu': doado pela unicidade.]

excertos que ficaram de fora do texto = tempo. passado. erros. gerados.
cenas do próximo capítulo = __________ (coloque a mão em cima da minha, como se fosse um jogo de corpo, e deixa o destino fingir que não somos nós que estamos escrevendo. e não deixa. coloque a mão em cima da minha e escreva no espaço em branco. faça alguma coisa. não faça nada só faça nem que faça comigo, agora, mas faça, nem que desfaça, se o que for feito não tiver efeito. e faça. pois que não faz nada, espera. e quem espera, disfarça. claro que não disfarça, esta farsa, e para isso faça, que assim algo existirá, e para acabar... façamos.)

uma produção: - me diga. - te digo. - então diga. - digo. - dizes? - já disse. - certeza? - claro. - me beija? - talvez. - talvez? - beijo. - então beija? - claro. - então vem. - vou. - vai. - vem. - vou. - vou também. - comigo? - queres? - claro. - então vamos. - vamos.

Vamos ser artistas!

domingo, 15 de novembro de 2009

Balde de ácido no estômago e pontadas no peito.


Acordei de madrugada na escuridão de meu quarto e ouvi o silêncio pleno. Aquilo foi a coisa mais bonita que alguém já disse para mim até hoje. Precisei interromper abrindo os olhos e colocando o pé para fora da cama. Mais um dia de serviço para cumprir. Eu trabalho como 'momento da vida humana'. Sou aquele momento em que o cara encontra com sua namorada, olha ela nos olhos e percebe que ela é a garota mais linda do mundo e que quer passar o resto dos dias junto com ela. Venho logo antes do momento em que ela conta para ele que está grávida do seu melhor amigo e que acabou tudo entre eles.

Eu queria ser agente secreto quando pequeno, mas nasci com um câncer terminal, então precisei escolher alguma profissão que envolvesse serviços rápidos, afinal, poderia morrer a qualquer momento. Estava entre trabalhar como um relâmpago, como o sucesso de uma celebridade instantânea ou como uma ejaculação precoce, mas de última hora o departamento das 'pequenas ilusões humanas' abriu vagas, e me candidatei ao trabalho de momento em que uma pessoa dá a primeira mordida em uma barra de chocolate. Acabei caindo neste meu serviço atual, e fico até feliz, melhor trazer a felicidade estando ligado a uma paixão por outro alguém do que ligado ao estômago de uma pessoa com problemas de excesso de comida e nervosismo. Se bem que dizem que chocolate também pode vir relacionado a uma paixão, mas no caso eu não viria junto com um sorriso, e mamãe sempre disse que eu era otimista.

Meu trabalho é bom, não tenho nada a reclamar, tirando que cada vez menos tenho serviço. As pessoas esqueceram o que é se doar a um momento bom com outras pessoas, e eu não falo de uma orgia, isso está fora do meu departamento. Só fico triste mesmo que já sinto os resquícios de meu fim, tudo o que é bom dura pouco, e meu câncer não tem cura. Deverão achar alguém que vá me substituir, e eu estava traumatizado com esta possibilidade até agora há pouco, mas hoje não, acordei ouvindo os sons do silêncio e pela primeira vez na vida senti a sinceridade que vem do nada e não promete nada também. Vou indo então para o trabalho, foi bom contar um pouco de minha vida, e não se esqueçam que a qualquer momento eu posso aparecer para vocês, só não se animem demais, minha vida é curta, e posso vir acompanhado de momentos não tão agradáveis, isso só vai depender de vocês. Como? Só posso dar uma dica, nunca usem meias azuis se estiverem viajando para a França.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

1. O Morto. (Trilogia do Desespero)


Nós, humanos modernos, vivemos numa ilusória nuvem de bons preceitos e morais. O homem costumava ter válvulas de escape para sua raiva e seus podres no passado, onde a violência era cotidiana. Hoje continuamos vivendo assim, mesmo que de forma escondida ou fantasiada. É inaceitável buscar o prazer em torturas aos nossos semelhantes, você não pode, ou pelo menos não publicamente, pegar alguém e causar a dor, bater nele até virar uma massa disforme de sangue e carne, ou em menor nível é inadmissível torturas sexuais, ou quem sabe psicológicas. Inadequado e supostamente indesejado, somos humanos, não monstros. Mas vamos ao cinema para assistir pessoas sendo massacradas, não vamos? Em uma tela enorme a pornografia, a desgraça, a tortura, a violência, tudo pode. Não deves sair por aí em atos imorais de sadismo e masoquismo extremos misturados a esperma e sangue, mas na TV... Na TV podes assistir isso, estás na segurança de seu lar, é apenas entretenimento. Por pior que seja a atrocidade vista ali, é ficção, é permitido. Esta ficção pode ser feita na vida real também, mas não deixe te pegarem.

Com os anjos é a mesma coisa. Anjos, criaturas divinas, seres puros e perfeitos, besteira. Os anjos vivem sobre máscaras como a gente. Enquanto protetores são bondosos e estão lá cumprindo seu papel, serventes de Deus, ou seja lá como você chame isso. Seres superiores, não desejam o mal à ninguém, pelo menos não publicamente. Ficção para eles portanto é pouco, já passaram deste nível de prazer, eles querem que seus espíritos tenham um banquete mais digno, passaram da simples percepção do irreal como alimento para seus desejos mais bizarros, até mesmo pois estes desejos não estão ligados aos seus órgãos sexuais como os fracos humanos, eles carregam um desejo muito maior da verdade, para eles não é questão de não deixarem que os peguem, é questão da necessidade disso, e por isso carregam dentro de suas batas celestiais uma seleção variada de joguetes próprios para diversão descompromissada. Um dos mais fracos em malignidade, mas também um dos mais divertidos em contrapartida se chama "Sacanear o Suicida". Anjos são justos, e mesmo que estejam desejando esta satisfação, sabem bem quem escolher. Esta história aconteceu com um amigo de um amigo meu, e acaba mais ou menos assim.

Tu que agora estás neste túmulo, bem arrumado, limpo e maquiado, tu que ontem levou um blefe como verdade e caiu em uma armadilha fatal, achou errado o que te fizeram, se matou em covardia. Acostumado a controlar, perdeu a chance e agora estás aí, pagando por tua tolice, recebendo a paz de troco. Acha que acabou? A morte te pareceu mais agradável do que conviver com a vergonha da queda, não é mesmo? Tu que já na velhice usava de teu império para destronar reis, selar rainhas, causar o pior possível aos príncipes e princesas da modernidade. Seja rico ou pobre, não importava, tomava o que te interessava, ou seja, tomava qualquer coisa em troca de prestígio. Nem o dinheiro mais importava, não naquele ponto, alguns anos atrás importava muito. Era o dinheiro que te salvava dos crimes. Era o dinheiro que te livrava dos males que tu causavas. Era o dinheiro que comprava aqueles risos que ganhavas de presente. Era o dinheiro que disparava aqueles flashes em tua cara. O dinheiro que excitava aquelas putinhas que poderiam ser tua filha que pegavas enquanto tua mulher estava em casa achando que estavas em reunião de negócio. Era o dinheiro que comprava este pensamento de tua mulher, ou pensas que ela não sabia o que estavas fazendo? Ou pensas que ela estava realmente em casa te esperando? Era o dinheiro que pagava o taxi que tua mulher pegava, que pagava a cocaína que tua mulher cheirava, que pagava o lubrificante anal que os amantes de tua mulher pincelavam naquele rabo cheirando à jasmins e óleos essenciais. Era o dinheiro que comprava o coração frio que carregas no peito ao não se importar nem um pouco com isso.

Antes disso era o dinheiro que tu só recentemente tinhas em folga que comprou aquela viagem de luxo para ti e tua esposa. E aqueles abraços sinceros dos funcionários do hotel. Por este dinheiro tu fizeste algumas trapaças, tirou o sono da noite de diversas pessoas. Envenenou outras mais das mais diversas formas que possas imaginar. Mas vivemos em um mundo onde o maior engole o menor, e não há nada de errado nisso, não é mesmo? O que os olhos não vêem o coração não sente. Por falar no coração, depois de se estressar tanto pelo dinheiro, foi o dinheiro que te deu um coração novo de metal escovado, afinal aquele antigo e imprestável feito de carne e músculos não seria capaz de agüentar por muito tempo as preocupações que engolias todos os dias com a mais cara das champagnes, não que soubesse diferenciar estas daqueles espumantes vagabundos que davas para teus funcionários de fim de ano, mas precisas manter o padrão, beber gelado e mijar quente, e que este mijo seja composto por pelo menos 5% de alguma substância que custe mais do que 500 dólares uma garrafa.

Saído da faculdade de advocacia virou pupilo de um trambiqueiro e herdou dele os truques, os funcionários e a sua filha do meio. Tu eras o braço direito dele, e o teu braço direito foi a ruína dele também, pois foi com este braço que tu segurou o revólver que disparou o tiro fatal para teu mestre. Depois este mesmo braço que abraçou a viúva dele em sinal de pesames, horas antes de abraçares novamente ela em sinal de gozo egoísta, afinal ela não era exatamente atraente, mas tinhas que acabar sua vingança contra aquele que te adotou como quase um filho e com isso te deu pontadas de inveja. Agora a vingança estava completa, e não foi de todo mal, admita, ela tinha uma bela bunda.

Traições à tua namorada. Bebedeiras pagas com o dinheiro que tu roubaste da bolsa de tua mãe. Cigarros que tu roubastes do maço de teu pai. Ações tolas que tu fizeste e armou para que tua irmã levasse a culpa. Colas no primário. Brigas com os coleguinhas. Palavrões no prézinho. Tu que nasceu do ventre de uma mulher religiosa e de um honrado homem de família, o que tens agora? Uma vida fabulosa que será recontada como maravilhosa nos livros de história da administração. Tens um monte de desregramentos, infidelidades, desonras, crimes, desprezos, e tens uma corda no pescoço. Agora tens um terno novo que vais usar pelo resto da morte. Tens a oportunidade de brincar no fabuloso jogo dos anjos, és o convidado da noite no "Sacanear o Suicida". Tu foste ateu a vida toda e zombava de tua mãe quando ela vinha com palavras de salvação e com as histórias bestas sobre anjos, agora veja só, é um anjo que conjura a vida dentro de teu caixão de ouro. Um anjo que vai com seus poderes te fazer reviver a vida de cada uma das pessoas que tu sacaneou. Parabéns, agora é você que será sacaneado enquanto sente o que todos eles sentiram, seus frágeis sentidos serão reativados, teu coração deixa de ser de metal e vira músculo novamente para que sintas nele o desespero destes que tu pouco se importaste durante a vida toda. Tua carne dói e sangra mesmo morta, pois ao mesmo tempo em que teu cérebro assume a culpa por tudo o que arquitetou em vida, os vermes que penetram em teu caixão estarão tendo um banquete da mais pura podridão em forma de homem. É um banquete para os anjos, e um banquete para os vermes, e se tu fores realmente sádico um banquete para ti mesmo. Consegues sentir o prazer no sofrimento alheio, e no teu próprio, consegues também? Tu não eras sádico, era imbecil, era um estúpido escroto, era um nada, um verme também, toma teu banquete traste imundo, não usa da armadura que os fracos gostam de utilizar sempre, - Sou humano - tu és humano e por isso mesmo teve a chance de lutar contra teu lado negro e fazer algo de bom para o mundo. Vais fazer agora algo bom por estes vermes e bom por estes anjos. O mal e o bem se banqueteando de tua carne repetidamente, não vão deixar que ela acabe, vais ser mordido e digerido diversas e diversas vezes até que tenhas tua tortura completa. E então eles vão jogar contigo e novamente, e novamente, e novamente, até que cansem, pois tu não cansou, tu fugiu de tua culpa. Quando você perdeu tudo resolveu que não merecia mais morrer. Quando teu falo ego foi castrado e tua virilidade caiu num poço de insegurança tu em vez de se prostrar como o maioral como fez a vida toda resolveu simplesmente fugir. Agora teu dinheiro que te prende. Teu caixão será tua prisão simbólica. Teus carrascos irão se divertir em cima de teus prazeres, irão dançar sobre teu corpo, irão beber de tua alma que não custa mais do que 500 dólares, mas custa mais do que 500.000 gritos e lágrimas e pesadelos dos que passaram pelo teu caminho. Consegues sorrir agora? Espero que sim, o show está apenas começando. Tu que foste a esperança de teus pais, o menino que eles queriam ver crescer e fazer algo de importante, que eles deram amor sem pedir nada em troca, que eles tentaram educar da melhor forma possível, tu que foste fraco sempre e deixou tuas escrúpulas te dominarem, tu que foi fraco e não aceitou que sempre há uma reação, agora receberas a força dela como pequenas alfinetadas por toda tua pós-morte. Este jogo se chama "Sacaneie o Suicida", e como tu sempre quis ser a atração principal em vida, serás a atração principal também em morte.

Se tiver alguma reclamação faça agora, mas não pense em pedir perdão, pois isso só alguns poucos merecem, e o correto a se fazer nem sempre é o mais agradável. Podes achar que esta pena é grande demais, mas repense isso, pois só vais receber o que te pertence, pois os anjos estão, sim, fazendo isso para satisfazer os próprios desejos, mas não se esqueça que acima de tudo eles sempre serão justos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Palavras desconexas procurando um autor.


Jack Kerouac, irritado, irritante
Poucas viagens, mentiras e difamações
Mudou o gênero, bateu na máquina um diário
Influência viva até hoje;

Sade, odiado por quase todos, louco
Habilidades sexuais fracas, nenhum amor
Seduzia com as palavras e os toques
É considerado o amante perfeito;

Hemingway, bêbado e psicótico
Poucos amigos, odiado pelas mulheres
Lembrado até hoje pelos seus textos
Exemplo grandioso de paixão pelo viver;

Henry Miller, mentiroso, falsário
Traidor, poucos casos, muitas falácias
Renovou a linguagem erótica
Escreveu sobre seus amores como ninguém mais;

John Fante, deprimido convicto,
Pessimista extremo, péssima companhia
Filósofo da vida, palavras que esquentam
Influente até para Bukowski, renovador de existências;

Hunter S. Thompson, corretinho e caretão
Reacionário contraditório, fiel e carente
Líder da contracultura, incitou revoluções
Explodiu paradigmas e mentes fechadas;

Arthur Rimbaud, jovem mimado, filhinho de papai
Falso em suas dores, ignorante em sua vida
Desfigurou o uso das palavras, dançou com o texto
Vomitou linhas poéticas e mudou o olhar do mundo;

[este trecho foi adicionado em edição da postagem, não estava originalmente aqui]

Antes de continuar, já que falei no Buk, tomem uma pílula de suas palavras. Se meu texto falar em incitar o calor no coração de vocês, leitores, pelo menos tenham as palavras do velho safado em mente para quem sabe servir de algum consolo.

"A verdade é que somos umas monstruosidades. Se pudéssemos nos ver de verdade, saberíamos como somos ridículos com nossos intestinos retorcidos pelos quais deslizam lentamente as fezes... enquanto nos olhamos nos olhos e dizemos: ‘Te amo’. Fazemos e produzimos uma porção de porcarias, mas não peidamos perto de uma pessoa. Tudo tem um fio cômico.
Nunca me senti só. Durante um tempo fiquei numa casa, deprimido, com vontade de me suicidar, mas nunca pensei que uma pessoa podia entrar na casa e curar-me. Nem várias pessoas. A solidão não é coisa que me incomoda porque sempre tive esse terrível desejo de estar só. Sinto solidão quando estou numa festa ou num estádio cheio de gente. Cito uma frase de Ibsen: ‘Os homens mais fortes são os mais solitários’. Viu como pensa a maioria: ‘Pessoal, é noite de sexta, o que vamos fazer? Ficar aqui sentados?’. Eu respondo sim porque não tem nada lá fora. É estupidez. Gente estúpida misturada com gente estúpida. Que se estupidifiquem eles, entre eles. Nunca tive a ansiedade de cair na noite. Me escondia nos bares porque não queria me ocultar em fábricas. Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar."

Pronto. Auto-estima levantada? Aceitaram que não são nada? Excelente. Agora esqueçam o que ele disse, voltem a pensar que são alguma coisa, pois assim eu acho que são, e no fundo o Buk também achava, como demonstrou em outros textos que escrever, mas sabem como ele é... não pode perder a pose. E é justamente sobre a pose que eu vou falar. Foi por isso que adicionei este complemento. Máscaras em mãos? Então, vamos ao que eu digo. O baile vai começar. É para isso vocês estão aqui, certo?

[fim do trecho adicionado em edição]

Alguns exemplos de escritores que me alimentaram a vida inteira. Alguns exemplos de defeitos que eles tinham. Não por isso deixaram de mudar a vida dos outros. Não por isso exatamente estavam enganando. Transpunham encantamentos através de personagens de si próprios. Quem os culpa pelos defeitos? O fazem menor do que são? Quem sou eu para virar a cara para seres perfeitos em suas indelicadezas. Se não fossem suas falhas as virtudes não seriam tão especiais. Se não fossem minhas falhas quem eu seria? Seria uma fuga que os fez não expor estas falhas? Kerouac apesar de tudo foi um dos melhores amigos para vários de sua época. Sade por meios diferentes fez diversas mulheres voltarem a acreditar no prazer. Hemingway fez diversos homens buscarem novamente o amor em alguém especial. Miller fez estes mesmos homens aceitarem seus defeitos e desejarem contornar eles para satisfazer este alguém. Fante fez homens e mulheres sorrirem pensando que mesmo a vida sendo cruel, vale a penas viver ela e querer que ela seja a melhor possível. Thompson mostrou que os loucos são os melhores, e que ser careta pode ser uma forma de loucura quando se é por si só, não para agradar os outros. Rimbaud mostrou que os sentimentos são valorosos e merecem ser expressos, nem que disfarçados como lamúrias de um barco bêbado.

Estes foram alguns exemplos apenas, poderia passar dias e dias citando outros seres completamente imperfeitos, mas completamente adoráveis, mas acho que mais do que citar, é melhor eu esperar que vocês leitores por um momento parem de buscar a perfeição e comecem a buscar a compreensão. Esta postagem saiu de uma limpeza mental que estava tentando fazer ao caminhar hoje. Acabei de passar por uma monografia que partiu minha mente em diversos pedaços, estou cansado dela até agora, e não pelo processo em si, mas pelas reflexões que ela me trouxe. Um casal amargurado pelos erros que cometeram casa um individualmente no passado com outras pessoas, se encontram em uma cidade e resolvem tentar fazer o outro pagar pelo que não merecia, buscam o prazer na dor do desconhecido que divide o quarto, entre estupros e calúnias cavam um amor que não existe, que já perderam, que não souberam lidar com seus antigos parceiros, e agora querem extrair de qualquer forma de quem não merece. Outro casal no Japão se forma em busca do prazer extremo que um pode proporcionar ao outro, e ficam cegos com isso, a ponto de esquecer que são humanos, e isso acaba trazendo a morte. Excluí dois outros filmes do trabalho, mas acabei sendo influenciados por eles também. Um casal em um cruzeiro vê em outro casal um relacionamento perfeito, e invejosos tentam reproduzir a perfeição da grama do vizinho na sua, mas a grama do vizinho não era tão perfeita, só que quando se tem algo, esquecemos de aproveitar isso para tentar corrigir os defeitos a qualquer custo. Por último um casal se forma da violência e da dor, um casal descobre o masoquismo como forma de prazer, um casal cansado do tradicional acaba extrematizando em formas erradas, em vez de sair sim do tradicional, mas seguir seus instintos, não seus medos. Foi um TCC sobre medos, sobre o prazer cego, e principalmente sobre a falta de aceitação que temos com tudo e todos. Às vezes menosprezamos o esforço de nossos correlacionados por egoísmo. Temos imagens do ideal e se este ideal não é alcançado erguemos a bandeira da culpa e do desprezo. Pode ser que seu amigo não tenha conseguido te ajudar da forma que querias naquela competição, mas ele tentou, não tentou? Pode ser que sua irmã não tenha demonstrado dar tanta importância a uma novidade sua, mas quem disse que não deu mesmo? Reações são diversas, motivações são complexas, demonstrações são satisfações. E às vezes quem sabe não seja nem falta de reação, motivação ou demonstração do outro. Temos limites, temos habilidades inatas, temos pensamentos próprios, temos também falta de estímulos, mas às vezes geramos falta de estímulo nos outros e não percebemos.

Nesta questão de se relacionar adicionei ao quarteto acima um novo filme. Homens como medrosos e invejosos. Mulheres como bruxas e cruéis por natureza. O ser humano como o verdadeiro mal. Se este instinto está na gente ainda se tem chances de mudar algo, é o que o filme me perguntou. Na hora pensei que aquilo seria uma visão simplória de uma situação mostrada em cena, mas ele fazia questão de dizer não, não é, tu também é um imundo como isso que estou te mostrando. Admita para si mesmo que você não gosta de ninguém e pouco liga para os outros. Admita! Então sai do quarto e fui buscar uma rodada de água para mim e para o filme. Quando ele estava mais calminho coloquei a cabeça para pensar. Não adiantou, a noite passou e fiquei com meus questionamentos e conflitos internos latejando. Então veio o medo da verdade do filme. Então eu virei o personagem do filme em partes. Então eu quis superar isso. E digo que sim há chances para nossa espécie, enquanto houver alguém interessado em não seguir as normas que te ditam, sejam as normas de um grupo dominante, sejam as normas da arte... mas espere, não vejo como o filme querendo me ditar algo. Eram apenas provocações, certo? O papel da arte em partes é te provocar. É como aquele velho amigo que é o primeiro a te sacanear, mas também o primeiro a te dar uma força quando a coisa é séria. Por isso amo os artistas. Artistas formam a versão humana das artes. Quero amigos artísticos, amores artísticos, pensamentos artísticos, futuros artísticos, e meu papel nisso é ser poesia sempre para inspirar o que me cerca. O papel dos outros é agir igualmente. E nisso a sinceridade, o bom relacionar, o querer o melhor, mas sem exigir algo definido. Querer o melhor não implica em buscar um ideal, e sim buscar a ajuda, oferecer a ajuda, compreender falhas, compreender méritos, apoiar falhas e apoiar méritos, ensinar e aprender, amar e odiar, nunca extrematizar, dar um abraço, chorar um pouco, escrever uma carta, olhar para o céu, caminhar um pouco, acordar de manhã, fazer um chá, fazer um chá para alguém, ligar para um velho amigo, acordar com alguém, chamar alguém para olhar o céu contigo, bater uma foto e enviar para quem não te vê há tempos, mas pensa em ti há iguais tempos, recomendar um livro, se apaixonar por um livro, conhecer o autor de um livro, escrever um livro, dedicar o seu livro para alguém, querer estar com alguém, buscar a rebeldia, buscar a caretice, buscar ser você mesmo, querer ser amado pelo que é, ter filhos, não ter filhos e montar uma ONG, envelhecer ao lado de alguém, colocar flores no túmulo de quem já se foi, sorrir ao lembrar-se deste alguém que já se foi de madrugada, fazer um chá de madrugada e neste chá ver outra pessoa, se animar pois podes ter um alguém para pensar, se animar pois alguém pensa em ti, se animar por estar vivo, e o amanhã já vem.

Não deixo o transtorno de lado, minha mente continua partida em diversos pedaços. Mas eu continuo inteiro. Meu nome é Ismael, prazer.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Minutos Fatais (Cabeça Deturpada)


Trac. 01:12PM. 11 rápidos minutos de espera pelo ônibus. 11 longos minutos para se gastar olhando os pombos. "Cuidado!" alguém grita, mas não era para ele. Para ele somente os pombos. E para os pombos restos de comida que derrubaram ali perto.

Trac. 01:13PM. Começa a pensar em como os pombos não reclamam do que resta para eles comerem. Mas então lembra dos contos que andou lendo onde pessoas rotas comem e bebem e fodem e não estão nem aí para o ambiente ou as condições de higiene do local. Copos sujos viram penicos, pratos fundos viram tinas para bebidas, dentes podres viram objetos sexuais, fetiches viram o café da manhã.

Trac. 01:14PM. E lembra que com ele não, com ele não era assim. Ele precisava de um prato quente ao chegar em casa. Ou pelo menos o café passado e servido em uma caneca limpa por ele mesmo, é claro. Ele precisava de paredes e precisava de papel em branco, de preferência pautado. Ele precisava de um pouco de chilli bem temperado. Ele precisava de um pouco de qualquer coisa temperada. Uma vez leu numa revista destas que se encontra no dentista um artigo que dizia que existem várias formas de se relacionar.

Trac. 01:15PM. Existe o relacionamento temperado com sexo. Existe o sexo temperado com relacionamento. Existe relacionamento. E existe sexo. Será que este último contava como relacionamento, se nem ao menos tinha 'relacionamento' relacionado nesta categoria? Ele sabia que precisava de tempero em seu chilli, portanto seria previsto que as duas primeiras opções de relacionamento mais lhe agradavam. Então ele seria um namorado com pênis, ou um pênis enamorado? Tanto faz, ainda teria que esperar o ônibus por mais 8 min...

Trac. 01:16PM. ...7 minutos. Pombos. Pombos. Pombos. Pombos.

Trac. 01:17PM. Uma vez falaram para ele que um bom escritor tem que viver bebendo e fumando e ocasionalmente fudendo com alguém. De preferência uma mulher, claro. Se bem que tem aqueles caras que adoram fuder com os outros mas não no sentido que imaginou estarem lhe recomendando. Será que ele era mesmo um bom escritor? Gostava de ler manuscritos de amigos e todos escreviam aceitavelmente ao seu ver, e ele mesmo relendo o que escrevia achava medíocre. Mas falaram para ele diversas vezes que escrevia bem, e dizem que a voz do povo é a voz de Deus.

Trac. 01:18PM. E a voz de Deus é a voz de Jim Morrison. Leu na capa de uma revista que Jim Morrison era Deus, e Jim Morrison escrevia bem pra caralho. Uma vez uma amiga contou para ele que a coisa que mais excitava ela era ouvir uma música do Doors durante a madrugada. Já imaginou a garota sem roupas se masturbando enquanto Morrison canta "There's a killer on the road...", por mais estranho que isso seja. Vejam só, ela era gostosa, foi um pensamento agradável, não culpem ele, aposto que vocês já imaginaram pessoas em situações mais estranhas do que essa.

Trac. 01:19PM. Esta mesma amiga lhe contou uma vez que seu sonho era dar pro Jim Morrison, não importava ele ser um bêbado, brocha, estúpido, o que fosse. Ela queria dar para ele mesmo que fosse em sua fase gorda e nojenta, mesmo coberto com cicatrizes pelo corpo todo. Não precisava nem dar da forma mais tradicional possível. Uma chupada já seria um sonho, e assim ela poderia morrer feliz. Não queria mais nada da vida, virava freira se pudesse colocar a boca em volta da cabeça do pau do Jim Morrison. Não exatamente foram estas as palavras que ela utilizou, mas era isso que significava e isso que ela pensava quando, vejam só, se masturbava de madrugada enquanto Jim Morrison cantava "...his brain is squirmin' like a toad".

Trac. 01:20PM. Será que algum dia alguma guria pensaria nele desta forma? Morrer em paz após um, sei lá, beijo dele? Um toque mais atrevido? Uma brincadeira de mãos durante o cinema? Um beijo atrás do pescoço? Um abraço entre dois jovens usando poucas roupas? Uma língua girando em torno de um mamilo excitado? Um dedo abrindo as paredes molhadas de uma xoxota? Um dedo acariciando um cu mais ou menos limpo? Um pênis alisando quente as pregas de uma garota? Um jato de esperma na barriga da mesma? Um beijo de boa noite, uma noite onde passam juntos, um acordar para um café da manhã, e pronto... muito mais do que uma chupada no Jim Morrison. Muito menos do que uma garota espera dele, pois claro, ele não é o Jim Morrison, e nunca alguém ficaria satisfeito com o que for que ele fizesse. Ele é um bosta esperando um ônibus.

Trac. 01:21PM. E ainda esperando um ônibus para voltar para casa depois de mais um dia de estudos que não o levariam a lugar nenhum. Se demitiu do emprego para fazer o seu mestrado com promessas de um emprego melhor, estava acabando já suas obrigações, e até agora nada tinha aparecido. Estava ferrado, sem emprego, sem mulheres, sem bebidas, só tinha uma bela dor de cabeça decorrente dos dias sem dormir, dias para preencher o prazo dos trabalhos que pegava para conseguir dinheiro para pagar o aluguel. Dias que se perderam pois já nem sabia exatamente que dia era, ou melhor, agora sabia. Este era uma bosta perdido no tempo e em pleno sábado voltando para casa por ter ido na faculdade pensando que era segunda. Pelo menos tirou tempo para estudar o que precisava, mas diabos, como um cara consegue confundir sábado com segunda?

Trac. 01:22PM. Um minutos para pegar o ônibus, e os pombos continuavam ali, não os mesmos, iam e vinham e iam novamente. Bem como ele estava fazendo nos últimos meses. Indo e vindo e indo novamente, um ciclo sem fim em direção ao nada. Só conseguia enxergar seu próprio traseiro, e como não era cachorro nem ao menos isso era divertido, afinal não tinha a mínima vontade de se lamber, único propósito que conseguia pensar para alguém que está admirando o quão belo é o seu fudido traseiro. E o celular toca, é uma mensagem. Mais do que isso, é uma proposta. Mais do que isso, é uma chance de aperfeiçoamento como escritor. E justamente naquele dia ele havia colocado aquela cueca que tem um rasgo no lado esquerdo. Mas era um bosta mesmo...

Trac. 01:23PM. ...mas apesar de tudo era um bosta feliz, pronto para pegar um ônibus e logo mais comer alguém durante a noite, ou pelo menos tentar. E quem tenta está vivo, certo? Então ele estava vivo, não nas melhores das condições, não com uma vida perfeita, mas estava vivo. Não era otimista, pelo contrário, mas tentou apreciar este pensamento por um instante. Logo voltou ao copo meio vazio, mas naquele instante deixou de ser um bosta, e virou um pombo, comendo os restos de comida que estavam caídos naquele terminal de ônibus.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

The Piano Has Been Drinking (Not Me)

Q: What’s heaven for you?
A: Me and my wife on Rte. 66 with a pot of coffee, a cheap guitar, pawnshop tape recorder in a Motel 6, and a car that runs good parked right by the door.

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Parte de uma entrevista com Tom Waits, o cara que ouço neste momento para ilustrar estas palavras mais. Somente mais palavras mais e pianos bêbados encharcados em álcool e fumaça, mas não eu. Estou aqui só ouvindo os dedos sujos deste cara tocarem melodias, enquanto fico bebendo o que resta no copo de suco de laranja. Acabou o café e não quero exagerar o burlesco com mais cafeína. É estranho como em certos momentos você está bem e nada te atinge. Depois por alguma besteira você avança para a zona azul do cérebro. Do cérebro pois estou dando um toque belo a um ponto que só é pintado por palavras normalmente. Seria o mesmo que dizer a zona cinza do coração, mas ao inverso. Preferi a primeira opção pois me levam a crer não ter coração, tal como o Homem de Lata que não podia nem chorar que enferrujava. Mas se até Nietzsche chorou, e Schopenhauer endoidou, o que será do cara com sentimentos de uma criança com 3 anos de idade? Oras, é só um personagem me disse o corvo que está na minha janela. Na verdade a janela é minha orelha, e o corvo sou eu. E o Tom Waits continua cantando aqui do lado. Por sinal, qual o motivo daquele trecho no começo do post? Nenhum exatamente, além de claro, concordo que aquela cena descrita por ele seria uma espécie de 'heaven'. Mas se te destinam a uma sebe de futuros que fraquejam, e tu acabas embarcando neste primeiro bote que para na beirada no passeio que estás a andar, pois veja só, existe um navegador ali dentro, seguro será? Como... e ao mesmo tempo, por qual motivo assim o fazes. Quando te restam apenas filmes bestas para te animar, motivo pelo qual te dizem ser sentimental, te resta o que exatamente? O morto ergue a cabeça e diz que não está morto. O vivo abaixa a cabeça e acredita que tudo se ajusta com o passar do tempo. Nada se ajusta com a cabeça baixa, ou quando assim o fazem, o vivo não está vendo. O morto aponta, mas mortos não falam, e o apontar já sabes que é falho, não é mesmo meu amigo? Leonard Cohen cantou sobre o futuro, deu visões pessimistas, cantou Suzanne com otimismo, encantou Suzanne com animalismo, de carne fez a carne, e oras, não deixou os problemas quebrarem sua esperança. Mas foi para longe meditar. Estes mesmo tolos, imbecis, estes que em certo momento acreditaram terem a força, depois de um tempo abaixaram a cabeça. E os mortos continuam a não falar. Mas alguns conseguiram superar. O que resta ao cara que escreve de madrugada, com a luz baixa, com o copo agora vazio? Resta fazer mais café, pois ele trai até seus medos, e vai lá se encher com mais cafeína, enquanto o piano continua bebendo e bebendo, mas não ele. Não ele... ele não bebe, só lamenta que os outros estão a beber, e assim percebe que se deixou atingir por falácias, e que não é nenhum robô, e então bebe, café mas bebe, pois isso também é considerado bebida, certo? E então bêbado com energia vital de almas alheias se engana que está novamente bem. E se engana que em algum momento estará lá, com sua esposa, na rota 66 com um pote de café, uma guitarra barata, um gravador cassete em um motel vagabundo de beira de estrada, e um carro bacana estacionado do lado de fora. Dramas e sonhos. Canções de blues e de amor tocadas naquele mesmo piano que nomeia este texto parte pessoal, parte ficcional. Qual é qual? Puxe uma cadeira e acenda o meu cachimbo que eu te conto, mas é uma longa história... amigo, tens tempo?