terça-feira, 29 de setembro de 2009

Innuendo.




[o vento continua soprando forte naquele banco de praça, tem espaço para suas pernas, mas você já está cansado de bem aproveitar ele, busca motivos para abaixar as pernas, sente motivos, imagina motivos, deseja motivos, engole motivos, ouve motivos, sonha motivos, chora motivos, mas os reais motivos não vêem além do que possibilidades e reais possibilidades, mas suas pernas continuam erguidas pois o espaço tem que ser ocupado, é este teu papel no universo. aguardar um outro metrônomo como o que tens no peito. aguardar que outro corpo faça o lugar de tuas pernas. aguardar carne para onde possas liberar calor pelas pontas de teus dedos. tuas pernas cansam. teu metrônomo chora. teus olhos ardem e procuram um novo ponto de foco naquela madrugada gelada naquele bando de praça. você sente? que bom, estás vivo, ainda á muito tempo para esperar que algo seja feito, você tem suas ações na manga, precisa somente de mãos ali dentro, de encontro ao teu braço, ao lado de tuas mãos, e aquela expressão que energizará teu metrônomo.]

Olhando pela janela ele pensava se não seria melhor para sua existência se algo acontecesse para acabar com sua história.
O corpo ainda teve tempo de virar no ar, os cacos de vidro desorganizadamente se prostaram num painel, o cérebro ativo ainda.
Não queria morrer, queria apenas saber como seria esta sensação de ter sua vida roubada pela morte que logo ali o admirava.
Virou história como sempre queria, morreu como sempre imaginara, viveu como sempre apaixonado foi.
Um belo acidente de carro para as páginas do jornal do dia seguinte, a vida na terra continua, e continua querendo tragédias.
Numa estrada o carro se perdeu, a janela se partiu em pedaços, seu corpo foi violentamente esmagado contra um muro.
E estes foram seus últimos pensamentos de fato, mal sabia que estava realmente chegando os créditos, a música final.
Seria apenas o encerramento ocasionado pelo seu destino.
Não eram desejos suicidas, ele nunca que iria se matar ou sequer pensar em como seria bom isso.
Pensava como seria ter alguns poucos segundos para perceber que logo chegariam os créditos de sua vida, e a música final.
Algo não forçado por ele, que não fosse previamente desejado, simplesmente acontecesse.
Olhando pela janela ele pensava se não seria melhor para sua existência se algo acontecesse para acabar com sua história.

[essa é a sensação de ter sua mente escorrendo gélida para fora de ti mesmo, pelo seu ouvido, e se encontrando com seus sentimentos que estão vestidos como uma velha roupa. por entre metáforas e processos complexos, não passa tudo isso de real transfiguração do que tu sente. tens direito de desejar, e direito de se frustrar. tens direito de confiar que pensando forte em algo, este algo acontecerá. tens direito de acreditar no futuro, tens direito de desejar diversas coisas. e neste momento você desejaria somente uma coisa. e algo por aí sabe o que se trata esta uma coisa, mas não está ali, contigo. continua esperando, verdadeiramente. e confia. confia. confia.]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Recado para mim mesmo:

pessoas são compostas de corpo e espírito. algumas não possuem a segunda parte, são apenas corpos. as outras utilizam os corpos para sua única utilidade real, criar livros e filmes. o resto não importa. é falsidade e hipocrisia. corpos em excesso e sem utilidade só ocupam espaço inútil no mundo. um mundo sem corpos poderia ser muito mais belo, pois teriamos a essência, as formas, as vidas que importam, a beleza natural, e espíritos vivos por aí. se não tivessemos corpos os livros e músicas seriam propagados de uma forma menos orgânica. seriamos todos únicos, uma verdade universal, sem ego, ganância, furtos, sentimentos machucados, ações planejadas para um caos falso, corpos sufocando espíritos... corpos imbecis. que se consumam aos extremos, que se dopem, que sejam forçados ao abuso material. que sejam estuprados e jogados por aí, é um presente aos que não tem espírito vivaz. para os pecadores a tortura é a única forma de contemplação ao supremo, ao essencial.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

insone.


Rockabilly, é isso que ele está ouvindo neste momento.
Sai do banheiro, boca limpa, dentes escovados. Não mais poderiam dizer que passou as últimas horas bebendo whisky.
Vai na cozinha, e prepara um pouco de café, precioso líquido que agora se faz necessário.
Agora e para todo o sempre, até a hora de vossa morte.
Amém, disseram para ele quando novo. Ele acreditou, e mentindo estaria se falasse que não pensa mais no assunto.
O tolo está pensando neste momento. Pensando em amor, em amar, e também pensando se vai colocar açúcar no seu café.
Não coloca, já chega a cafeína, não quer mais um estimulante ali, afinal o "vagabundo" tem que trabalhar amanhã.
Mas ainda é hoje, troca o disco, agora ele vai para um jazz nervoso, representação de seu interior neste momento.
Quer parar de pensar em besteiras, mas se vê sem sono, sem motivação, sem...
Sem tudo o que deveria estar com, e com tudo o que deveria estar sem. Um inverso do reverso. Mas isso não seria o correto?
Desistiu de pedir desculpas por ter problemas, todos têm, por qual motivo implicam de ele ter os dele, vejam que bela coleção.
Pega um papel e começa a rabiscar um desenho. Não desenha porcaria nenhuma, mas acha que desenha.
Deveria ficar só nos textos, mas cansou de tentar mudar o mundo, faz músicas então, mas nisso não é o melhor no que faz.
Uma noite insone não é simplesmente passar a madrugada acordado – para isso cabem várias outras designações.
E as horas passam, e quando vê o dia já está nascendo. Pena que é só no filme que passa na TV que deixou no mudo.
Lá fora ainda é noite, e vai ficar assim por um bom tempo. Na mente de quem tem certeza, as horas demoram a passar.
A depressão aumenta, a dor no estômago também. Te falei que ele está com dor no estômago? No estômago e na cabeça.
Não toma uma aspirina pois elas não adiantam mais. Então pega lá mais uma caneca de café, entorna, e se joga na cama.
Olha para o teto e começa a pensar que amanhã tem que acordar cedo. O que adianta pensar nisso agora?
Queria não estar sozinho na cama. Ou será que é só mentira dele? Será que ele não se coloca nestas situações por prazer?
Isso seria masoquismo, e como bom poeta, depressão sim, prazer na dor jamais, ou pelo menos mantenha a pose que não.
Reclame. Ele reclama. Sinta. Ele sente. Ame. Ele ama. Viva. Ele vive.
Morra. Ele não morre, ainda não é a hora. Nosso herói pensa diversas vezes ao dia como será o amanhã, mas ele só tem a certeza do hoje, ou de como queria que fosse.
Mas não é como ele queria. E ele entende isso. Mas não perde as esperanças, a qualquer hora as coisas podem mudar.
A qualquer hora a cama pode não estar mais vazia. A qualquer hora os livros não serão mais rascunhos.
Poderá significar algo. A qualquer hora ele pode estar morto. Mas agora está vivo, e continua confiante em si mesmo.
Escova os dentes novamente. Agora com um sorriso irônico nos lábios, comendo o recheio das lembranças.
Colocando de volta no pacote as bolachas, limpando o canto da boca sujo de desejo, respirando ainda com uma certa dor interna, não do estômago, mas sim da ansiedade pelas boas novas. Aquelas que farão ele se contentar até que ache um novo motivo para voltar a ser chato.
E ele terá. Está chegando logo ali, junto com a Insônia que foi buscar uma pizza mas já está de volta.
Boca limpa novamente, mas a mente disfarçou por um momento, mas não está bem. Novos pensamentos, novas horas lentas correndo.
Enquanto os olhos sangram, o coração continua batendo, e tudo fará sentido no fim da noite...

[essa é uma obra de ficção, apesar de tudo ter acontecido em alguma vida real.]