quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Como achei a cura para a gripe após operar meu próprio cérebro.


Desde que parei de me preocupar com a gripe, nunca mais fiquei gripado. Eis a cura, agora vamos aos motivos pelo qual estou falando sobre isso, e toda a base por trás desta simples, quase humorística afirmação. Claro que ninguém irá me levar a sério realmente, nem pretendo. Essa minha cura pode ser apenas coincidência, bem como pode ir por água abaixo a qualquer momento. Mas o fato é que desde que parei de pensar que ficaria gripado por qualquer besteira, nunca mais entrei numa gripe daquelas profundas. Andei na chuva quando estava com vontade, não troquei a roupa molhada quando não queria, tomei bebidas geladas no inverno, andei na neve de bermudas, dormi numa floresta ventando... falaram que eu não deveria, mas como sou averso a deveres preferi ir pelo meu próprio querer. Foi quebrar meu ego a favor do meu eu.
Num recente estímulo a conversar comigo mesmo, em certo momento do transe que parecia perdido, aceitei o momento e resolvi parar de buscar respostas, só sentir. Foi aí então que consegui visualizar os elos que me levam a todas as pessoas que já tive contato em vida. Caminhando por entre esta galeria de vínculos, cheguei a pessoas que têm me causado algo mais recentemente, e vi que mesmo as que eu mantinha sentimentos ruins, ali com meu eu nu minha sensação a elas se mostravam diferentes do que normalmente assumo, novamente por culpa do meu ego, esta máscara que dita como eu devo considerar os outros e me fazer vivo para que os outros me considerarem um algo programado, um habitante de suas vidas.
Foi estando desperto por estes estímulos, então, que notei o quanto gosto de muitas pessoas, e o quanto tenho manipulado até a mim mesmo para assumir uma característica diferente quanto a elas na realidade existencial. Por qual motivo eu estava tão bem naquele momento com essas pessoas, e na vida cotidiana, mesmo quando sozinho e pensativo, eu acabava tendo sensações ruins, tristezas, depressões, saudades que machucam, e toda esta gama de máscaras envenenadas? Lembrei então de minha gripe.
Quando parei de tentar resolver a gripe antes mesmo de ela chegar, parei de ficar ruim por ela. Às vezes tenho tosse, às vezes espirro, às vezes meu nariz tranca por um tempo, mas aceito isso como pequenas variações do corpo decorrente de motivações que não compreenderia sem pensar cientificamente. Assim deveríamos tratar nossas relações humanas. Estabelecer contato com pessoas acaba sendo experiência, e a partir do momento que você cria esse contato, ela entra em sua galeria. Esse contato poderá evoluir em relações, com momentos bons ou ruins, ganhos e perdas, compreensão e silêncio. Nos preocupamos em agradar os outros, ou seja, criamos um pensamento sobre como os outros irão reagir a tais e tais coisas. Que direito temos de supor como o outro irá se sentir em relação ao que tu és e fazes? Por mais que as intenções sejam boas em muitos casos, nossas relações são pessoais, interdepentes, claro, por isso em vez da preocupação o melhor caminho é a honestidade. Os que desejam controle temem o conhecimento alheio, e a virtude do homem honesto. Ser honesto, viver o que desejas, quebrar seu ego e não querer resolver as situações com controle é a melhor forma de resolver os problemas da forma mais nobre, através dos sentimentos.
Fiz estas conclusões em mais um momento de caminhada, onde pude filtrar as experiências e começar a buscar a sensação pura também na realidade sã. Sentimentos nomeados, como amor, ódio, raiva, desejo, carinho, saudades são criações de nosso cérebro. Sentimentos reais só serão reais através da honestidade, sem máscaras. Deixe de se preocupar com a dor em você e nos outros, se preocupe com o sentir, e com o perceber das reais ligações que temos uns com os outros. Assim terás o amor real, não o amor romântico, filosófico, ideal. A única forma de não machucar os outros é deixar que eles aceitem a tua honestidade, e para isso sede honesto consigo mesmo. Tuas dores assim também serão reais, e nunca mais ficarás gripado, de corpo, e de alma.

"That unfortunate time is ending when suffering was considered to be an inevitable part of life. (Este tempo desafortunado terá fim quando sofrimento for considerado parte inevitável da vida.)"
- David Lynch

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Decálogo.


1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.

Sugestão de dez princípios por Bertrand Russell.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Ele está se tornando melhor, não veem?


Não gostaria de estar aqui, mas ia me sentir mal pelo resto da vida se não fizesse esta visita. Estive afastado de minha cidade por tempos, e quando retorno fico sabendo das notícias. Meu velho amigo cedeu ao que já demonstrava ser seu caminho, não aguentou a pressão, e foi declarado humano. Esta visita é o mínimo que eu poderia fazer por ele. Engoli o medo e resolvi me dirigir ao Mundo Real. Agora é tarde para desistir, já fecharam as portas atrás de mim, sempre em frente como diria meu pai. Vejam só, então este é o pátio da Realidade, todos estes seres sentados, ou andando, com suas expressões de preocupações, seus sentimentos verdadeiros que só duram o tempo de serem frustrados por outro alguém com também verdadeiros sentimentos. Todas estas pessoas saindo de seus quartos para fazer algo neste local. Uns brincam de médico, outros brincam de artistas, é triste. Então olho para a direita e está lá, meu amigo, velho Conformismo. Não mudou nada, ainda continua com o sorriso sereno de quem busca sempre a opção mais fácil. Sinto pena dele, e de todos que estão aqui, sinto como se...

- Amigo! É você.

Sim, sou eu. Ele me reconheceu e está vindo para cá. Não consigo falar nada, mesmo tendo muito para dizer. Seu rosto me rouba as energias, portanto escuto. Fala.

- Vejo que estás assustado. Não é para menos, achei que nunca iria vir para cá, mas veja só, estou preso com todos os outros. Todos estão aqui, e não sei, acho que me resta um pingo de ousadia e visão, tenho medo de perder isso logo. Por enquanto ainda te vejo e te entendo, mas os outros aqui, todos, caramba, não sei nem como dizer. Todos aqui vivem seus dias achando que isso é nosso destino e nada pode ser feito. Eu que me chamo Conformismo pareço ser o único que ainda mantém a insanidade em dia, mesmo que debilitada. Mas como já disse, logo devo perder. Posso ser sincero contigo?

Pode.

- Não luto mais contra isso. Desisti de mudar e aceito meu nome. Cansei de defender que não esperassem que lhes dissessem o que fazer, cansei de viver a vida por mim mesmo. Temos regras aqui, e seres mais poderosos. Os guardas que te guiaram aqui para dentro, por exemplo. Como viver lutando pelo que acredito se isso parece desagradar tantos outros? Você ainda usa sua imaginação, não é mesmo? A minha se esgotou. Tentei ser perfeito, e acabei aqui nesta realidade. Todos aqui tentam ser perfeitos, e mesmo que pensem que estão por si, a perfeição já vem de certo ideal externo.

Não sou perfeito, nem quero. Não entendo o motivo pelo qual queres ser perfeito amigo, seja você mesmo, perfeito na sua imperfeição...

- Comecei a pensar que estava mesmo sendo perfeito, a renegar o amador, queria profissionalismo, deixei a graça de lado, queria risadas precisas e fabricadas. Tive medo de errar, entrei na perfeição. “Bem-vindo ao Mundo Real”, me falaram. Sorri para isso, os guardas então me pegaram. Os chefes me deram uma entrada para cá. Tenho meu quarto, fiz família aqui
dentro, está tudo tão bem.

Espera, o discurso está mudando. Ele falou que não queria perder sua insanidade, mas a cada momento parece estar mais seguro do que fala. Ele está...

- Estou me sentindo realizado. Logo estarei ali sentado esperando minha morte. Veja, minha vida é perfeita aqui dentro.

Não.

- Sim, tenho tudo o que quero. Temos TV aqui dentro, o que mais precisamos?

Viver?

- Não faço mais besteiras, sou um homem correto e reabilitado. Orgulho-me de meu conforto. Tantas vezes disse sim, agora o não me seduz. Não tentar coisas novas, para quê? Vamos morrer um dia. Melhor fazer o certo, seguir os passos já traçados, inovação é para os loucos.

Qual o problema em ser louco?

- Aqui neste mundo real as coisas são tão mais fáceis. Resolvo meus problemas dando um passo para trás, não encarando o novo, o antigo era funcional até certo ponto. Você fica lá fora, naquele hospício, com sua maldita liberdade, tendo que lidar com situações inéditas, e com isso os problemas são maiores.

Maiores, mas quanto maior o problema, maior a recompensa. Prefiro tomar decisões firmes e lutar por elas a me voltar ao mais fácil, ter também problemas, mas não evoluir com eles. Amigo, o que ocorre contigo? Desde que cheguei você está mudando aos poucos. Será que minha demência te assusta e acelera sua queda para a permanente estadia aqui no Mundo Real?

- Realidade!

Loucura!

- Conforto!

Nonsense!

- E tu ficas aí com este semblante de terror, não fala comigo. Tu és louco?

Sou. Juro que queria falar contigo, mas esta tua certeza de felicidade que não passa de um disfarce para teus profundos pesares me impede de comunicar o que sinto. Esta tua normalidade não condiz com minha complexidade que te tenta, mas te afasta. Como vieram te pegar? Trancar aqui. Estavas ainda com um brilho no olhar quando cheguei, mas do nada só vejo uma fumaça cinza saindo de teus poros. Teu colorido não me parece mais vívido, por mais que se eu te perguntar vais estar radiante. Não creio que minha mão tenha forças para te arrastar daqui, nem quero tentar. Não me diz respeito a tua normalidade. Você teria que quebrar ela por conta própria, mas teu nome é Conformismo, isso pouco me conforta.

- Certo, não vais falar.

Não posso, quando falo faço lambança, e isso seria demais para ti. Não és livre para errar, as falhas te machucam mais do que espinhos. Entendi que queres ser perfeito, o que resta para mim além de torcer que percebas a beleza que há na possibilidade de falhar? Com esta possibilidade os acertos se fazem muito mais deliciosos.

- O que mesmo tu falavas sobre viver?

Viver é experimentar. Dar uma chance a uma nova possibilidade. Tem a ver com trabalhar com o que você tem na sua frente e transformar tudo de embaraçoso, medonho e estúpido da sua vida em pontos a favor.

- Não importa. Adeus.

Adeus. Não poderia mais ficar neste local mesmo. Já notaram que minha presença aqui é um mal para esta organização tão bem disfarçada como o correto. Mais alguns minutos e os que cuidam dela viriam pessoalmente me expulsar. De volta ao espaço aberto, sem paredes, vou achar meus semelhantes e juntos vamos rumo ao infinito. Conhecer novos lugares. Sentir novas sensações. Se abrir a novos amores. Superar as velhas dores. Estou livre e isso é que importa. Estou vivo e não vejo a hora de experimentar o literal deste presente, no futuro, com o que aprendi no passado. Guardo minhas lembranças na mala que sempre me acompanha, e começo a caminhar. Dou a mão a quem vem ao lado. O dia está lindo. Olho para trás e sinto falta do Conformismo, mas sei que ele vai ficar bem. Lá dentro da Realidade existem muitas pessoas que precisam dele, não as culpo, só espero que um dia elas consigam abrir os olhos e ver o quão belo é aqui fora. Continuo andando, resolvo cantarolar uma velha canção sobre tristeza, pois não há nada de errado com ela, como muitos pensam. No final sei que estarei alegre. Venceremos! E a isso brindaremos! E beberemos! Saúde!

domingo, 9 de agosto de 2009

Duelo


A poeira é levada pelo vento quente,
Ao longe nada se vê além dos casebres mal acabados
Mas no meio da estrada que leva até eles
Em pé, olhando na minha direção, está meu algoz

Eu não tenho armas, eu não tenho nada
Eu tenho a roupa do corpo que de nada me protege
Ele tem armas de fogo
Suas botas se arrastam na poeira, ao longe

Eu não posso fugir, tenho de enfrentar
Só não tenho a mínima idéia de como será
Sinto sede, a garganta seca arranha
Meu suor escorre e sinto o gosto salgado

Ao longe, ele não se move, a fumaça de seu cigarro sim
Ele saca e dispara um único tiro, e erra
Foi proposital, um aviso
Apenas para se divertir

Não consigo lembrar por que chegamos a essa situação
Morrer, eu não sabia que seria tão dramático
Sem chances, tão covardemente
Sem direito a defesa, morrer como um cão

Ouço o segundo tiro, e sinto-o logo em seguida
Minha roupa se mancha de vermelho
Na altura do peito
A cor parece tão significativa

Eu caio, de uma única vez
O estranho se aproxima, posiciona sua arma
Na direção da minha cabeça
Pergunto o seu nome

DESTINO, ele diz, e atira.
Nada acontece... Ainda estou vivo.
O estranho ainda está lá e diz:
"Vá embora, seu lugar não é aqui"

E, cambaleando, eu sigo em frente
Tendo em mente que estou vivo
Apenas porque o Destino quis
E que o deixei para trás.