terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O ano em que não voei para longe.



Chegou o fim do ano.

No passado isso significava reprise de filmes antigos na TV. No presente isso significa reprisar filmes para tentar se entender.

No passado isso significava dúvidas sobre o futuro. No presente isso significa dúvidas sobre o passado.

No passado isso significava que logo vinha um novo ano com as mesmas coisas para se fazer. No presente isso significa as mesmas coisas para se fazer de uma forma diferente.

Significava que o diferente era uma esperança. Significa que ter um pouco de esperança não significa ser um pouco diferente.

Significava que se podia ser aquilo e estava tudo bem. Significa que ser aquilo que sou está tudo bem, mas como humano não quero ter tudo bem.

Como humano não quero ser o que está correto nem para todos nem para mim, pois eu sou humano, e o meu correto não é o mais válido, pois não sei o que é o meu correto, por isso não me satisfaço com aquilo que parece melhor para mim neste momento, e por isso estou sempre idealizando algos, pensando algos, supondo algos...

Mas também não é isso que quero. Quero ação e quero emoção. Quem supõe somente as vislubra, não as vive. Quero neste fim de ano ser o que posso ser, não ser o que sou, pois caminho numa corda esticada, e enquanto berram lá de baixo para manter a calma, ficar quietinho, não caia, não caia, eles me dizem, não caia, eu caio, e caio não por ter ido em frente, caio pois prestei atenção neles, e dentre eles estou eu dizendo não caia, não caia.

E quando tento novamente, se avanço em frente, ao chegar no final percebo estar indo para o lado errado, e meu começo quem sabe tenha sido a minha verdade, e quem sabe a minha verdade não signifique apenas um sinal onde devo dar a volta e tentar novamente, pois ali também não é a verdade, é apenas a minha verdade.

No passado a minha verdade significava insegurança. No meu presente a minha verdade significa segurança demais. E por isso eu caio.

E por isso começa mais um ano, mais novas chances de cair. Aproveitem elas, só caindo você terá a chance também de mostrar que é forte em se levantar e subir lá novamente, em vez de seguir a multidão que se dispersa, a multidão que tenta só uma vez ou nem mesmo tenta. A multidão que diz 'eu não posso', 'eu não sinto', 'eu não vou', eu não quero acreditar nesta multidão. Os vícios são os mesmos, só temos pontos de vista diferentes, mas com um ponto de vista lá de cima consegues ver mais coisas. Só não se esqueça nunca que os vícios são os mesmos.

Não esqueça que não podes apenas tentar agir se os outros não querem que tu faça algo. E que podes.
Não esqueça que não consegues mudar o mundo se o mundo não quer ser mudado. E consegues.
Não esqueça que não podes cativar alguém se alguém não quer ser cativado. E que podes.

Esqueça que te falaram coisas. Esqueça que eu te falei coisas. Esqueça das repetições deste texto, todas propositais, e eu prometo que esqueço que isso é apenas uma forma de ressaltar meu desespero.

Eu esqueço que um novo ano está começando, e que é só apenas uma mudança estabelecida pelo homem e para o homem que precisa de uma motivação maior para mudança. Um novo ano não significa mudança. Meu passado é igual ao meu presente, sou o mesmo, só com maior bagagem, só com maiores desejos, só com maiores possibilidade, só com maiores valores nas contas bancárias, só com maiores ódios, só com maiores frustrações, só com maiores paixões, só com maior amores, só com maiores vinganças, só com maiores pensamentos, só com maiores roupas, só com maiores doenças, só com maiores virtudes, só com maiores preconceitos, só com maiores achismos, e acho que isso tudo é uma mentira.

Acho que eu não deveria estar aqui sozinho digitando estas coisas. Acho que o fim do ano não muda nada. Vamos continuar sendo os mesmos, mas maiores. Que em 2010 as pessoas sejam maiores em amores e vícios, em planos e pensamentos, em certezas e incertezas, em futuro, que morram várias vezes em 2010, e que vivam mais vezes ainda em 2010, em 2009, em 2008, em 2007, em 2006, em 2005, em 2004, em 2003, em 2002, em 2001, em 2000. Feliz ano novo!

sábado, 21 de novembro de 2009

TEXTO PARA SER LIDO EM VOZ ALTA, VELOCIDADE RÁPIDA, SEM PARAR, SEM RESPIRAR, SEM PENSAR, SÓ A SENTIR MINHA LÍNGUA ESTALANDO ESTAS PALAVRAS DIRETAMENTE NO ESTRIBO DO TEU OUVIDO.


Vamos ser artistas em Nova York
Tocar guitarra faltando cordas em Seattle
Brincar de Guilherme Tell no Mississippi
E Bonnie & Clyde seremos então de fato.

Vamos para Paris, Suíça, Zaire
Se me permites te levo hoje para a Bielorrússia
E amanhã estamos de volta para o café da manhã
Aqui em casa, já pensou, amoras e geléias especiais.

Aonde está a rima em viajar para a Grã-Bretanha?
No Tibet já estivemos, em sonho claro, mas...
Santa Lúcia, Porto Rico, México, Chile
Lugares iguais para estarmos igualmente à lugares.

E cântaros, e teus lábios, e teu dorso, e meus dedos
E nossos mapas, vamos ser artistas em Berlin
Linda garota, não de Berlin, mas daqui e ali
E qualquer lugar, vamos ser poetas hoje à noite?

E vamos cair na estrada, e vamos cair na cama
Sonhar, depois de acordar, de mais que mais?
Sei lá, vamos viajar para outro lugar, só diga
Vamos - que eu te levo para lá, só diga Vamos.

Então vamos, então venha e traga teus lábios
Traga teu sorriso. Traga teu abraço. Traga teu desejo
E também traga os teus medos para que eu possa te salvar
Mas não traga o que me estraga, que é teu desprezo.

Mudei minha cabeça de lugar, estou ali, enquanto me olhas
Aqui, e mesmo que por vezes pareça meu reflexo, sem nexo
Digo, vamos ser artistas em Nova York, mas ser artistas
Aonde estamos, aqui e agora, vamos?

[quadro pintado por ti: assinado por 'eu': doado pela unicidade.]

excertos que ficaram de fora do texto = tempo. passado. erros. gerados.
cenas do próximo capítulo = __________ (coloque a mão em cima da minha, como se fosse um jogo de corpo, e deixa o destino fingir que não somos nós que estamos escrevendo. e não deixa. coloque a mão em cima da minha e escreva no espaço em branco. faça alguma coisa. não faça nada só faça nem que faça comigo, agora, mas faça, nem que desfaça, se o que for feito não tiver efeito. e faça. pois que não faz nada, espera. e quem espera, disfarça. claro que não disfarça, esta farsa, e para isso faça, que assim algo existirá, e para acabar... façamos.)

uma produção: - me diga. - te digo. - então diga. - digo. - dizes? - já disse. - certeza? - claro. - me beija? - talvez. - talvez? - beijo. - então beija? - claro. - então vem. - vou. - vai. - vem. - vou. - vou também. - comigo? - queres? - claro. - então vamos. - vamos.

Vamos ser artistas!

domingo, 15 de novembro de 2009

Balde de ácido no estômago e pontadas no peito.


Acordei de madrugada na escuridão de meu quarto e ouvi o silêncio pleno. Aquilo foi a coisa mais bonita que alguém já disse para mim até hoje. Precisei interromper abrindo os olhos e colocando o pé para fora da cama. Mais um dia de serviço para cumprir. Eu trabalho como 'momento da vida humana'. Sou aquele momento em que o cara encontra com sua namorada, olha ela nos olhos e percebe que ela é a garota mais linda do mundo e que quer passar o resto dos dias junto com ela. Venho logo antes do momento em que ela conta para ele que está grávida do seu melhor amigo e que acabou tudo entre eles.

Eu queria ser agente secreto quando pequeno, mas nasci com um câncer terminal, então precisei escolher alguma profissão que envolvesse serviços rápidos, afinal, poderia morrer a qualquer momento. Estava entre trabalhar como um relâmpago, como o sucesso de uma celebridade instantânea ou como uma ejaculação precoce, mas de última hora o departamento das 'pequenas ilusões humanas' abriu vagas, e me candidatei ao trabalho de momento em que uma pessoa dá a primeira mordida em uma barra de chocolate. Acabei caindo neste meu serviço atual, e fico até feliz, melhor trazer a felicidade estando ligado a uma paixão por outro alguém do que ligado ao estômago de uma pessoa com problemas de excesso de comida e nervosismo. Se bem que dizem que chocolate também pode vir relacionado a uma paixão, mas no caso eu não viria junto com um sorriso, e mamãe sempre disse que eu era otimista.

Meu trabalho é bom, não tenho nada a reclamar, tirando que cada vez menos tenho serviço. As pessoas esqueceram o que é se doar a um momento bom com outras pessoas, e eu não falo de uma orgia, isso está fora do meu departamento. Só fico triste mesmo que já sinto os resquícios de meu fim, tudo o que é bom dura pouco, e meu câncer não tem cura. Deverão achar alguém que vá me substituir, e eu estava traumatizado com esta possibilidade até agora há pouco, mas hoje não, acordei ouvindo os sons do silêncio e pela primeira vez na vida senti a sinceridade que vem do nada e não promete nada também. Vou indo então para o trabalho, foi bom contar um pouco de minha vida, e não se esqueçam que a qualquer momento eu posso aparecer para vocês, só não se animem demais, minha vida é curta, e posso vir acompanhado de momentos não tão agradáveis, isso só vai depender de vocês. Como? Só posso dar uma dica, nunca usem meias azuis se estiverem viajando para a França.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

1. O Morto. (Trilogia do Desespero)


Nós, humanos modernos, vivemos numa ilusória nuvem de bons preceitos e morais. O homem costumava ter válvulas de escape para sua raiva e seus podres no passado, onde a violência era cotidiana. Hoje continuamos vivendo assim, mesmo que de forma escondida ou fantasiada. É inaceitável buscar o prazer em torturas aos nossos semelhantes, você não pode, ou pelo menos não publicamente, pegar alguém e causar a dor, bater nele até virar uma massa disforme de sangue e carne, ou em menor nível é inadmissível torturas sexuais, ou quem sabe psicológicas. Inadequado e supostamente indesejado, somos humanos, não monstros. Mas vamos ao cinema para assistir pessoas sendo massacradas, não vamos? Em uma tela enorme a pornografia, a desgraça, a tortura, a violência, tudo pode. Não deves sair por aí em atos imorais de sadismo e masoquismo extremos misturados a esperma e sangue, mas na TV... Na TV podes assistir isso, estás na segurança de seu lar, é apenas entretenimento. Por pior que seja a atrocidade vista ali, é ficção, é permitido. Esta ficção pode ser feita na vida real também, mas não deixe te pegarem.

Com os anjos é a mesma coisa. Anjos, criaturas divinas, seres puros e perfeitos, besteira. Os anjos vivem sobre máscaras como a gente. Enquanto protetores são bondosos e estão lá cumprindo seu papel, serventes de Deus, ou seja lá como você chame isso. Seres superiores, não desejam o mal à ninguém, pelo menos não publicamente. Ficção para eles portanto é pouco, já passaram deste nível de prazer, eles querem que seus espíritos tenham um banquete mais digno, passaram da simples percepção do irreal como alimento para seus desejos mais bizarros, até mesmo pois estes desejos não estão ligados aos seus órgãos sexuais como os fracos humanos, eles carregam um desejo muito maior da verdade, para eles não é questão de não deixarem que os peguem, é questão da necessidade disso, e por isso carregam dentro de suas batas celestiais uma seleção variada de joguetes próprios para diversão descompromissada. Um dos mais fracos em malignidade, mas também um dos mais divertidos em contrapartida se chama "Sacanear o Suicida". Anjos são justos, e mesmo que estejam desejando esta satisfação, sabem bem quem escolher. Esta história aconteceu com um amigo de um amigo meu, e acaba mais ou menos assim.

Tu que agora estás neste túmulo, bem arrumado, limpo e maquiado, tu que ontem levou um blefe como verdade e caiu em uma armadilha fatal, achou errado o que te fizeram, se matou em covardia. Acostumado a controlar, perdeu a chance e agora estás aí, pagando por tua tolice, recebendo a paz de troco. Acha que acabou? A morte te pareceu mais agradável do que conviver com a vergonha da queda, não é mesmo? Tu que já na velhice usava de teu império para destronar reis, selar rainhas, causar o pior possível aos príncipes e princesas da modernidade. Seja rico ou pobre, não importava, tomava o que te interessava, ou seja, tomava qualquer coisa em troca de prestígio. Nem o dinheiro mais importava, não naquele ponto, alguns anos atrás importava muito. Era o dinheiro que te salvava dos crimes. Era o dinheiro que te livrava dos males que tu causavas. Era o dinheiro que comprava aqueles risos que ganhavas de presente. Era o dinheiro que disparava aqueles flashes em tua cara. O dinheiro que excitava aquelas putinhas que poderiam ser tua filha que pegavas enquanto tua mulher estava em casa achando que estavas em reunião de negócio. Era o dinheiro que comprava este pensamento de tua mulher, ou pensas que ela não sabia o que estavas fazendo? Ou pensas que ela estava realmente em casa te esperando? Era o dinheiro que pagava o taxi que tua mulher pegava, que pagava a cocaína que tua mulher cheirava, que pagava o lubrificante anal que os amantes de tua mulher pincelavam naquele rabo cheirando à jasmins e óleos essenciais. Era o dinheiro que comprava o coração frio que carregas no peito ao não se importar nem um pouco com isso.

Antes disso era o dinheiro que tu só recentemente tinhas em folga que comprou aquela viagem de luxo para ti e tua esposa. E aqueles abraços sinceros dos funcionários do hotel. Por este dinheiro tu fizeste algumas trapaças, tirou o sono da noite de diversas pessoas. Envenenou outras mais das mais diversas formas que possas imaginar. Mas vivemos em um mundo onde o maior engole o menor, e não há nada de errado nisso, não é mesmo? O que os olhos não vêem o coração não sente. Por falar no coração, depois de se estressar tanto pelo dinheiro, foi o dinheiro que te deu um coração novo de metal escovado, afinal aquele antigo e imprestável feito de carne e músculos não seria capaz de agüentar por muito tempo as preocupações que engolias todos os dias com a mais cara das champagnes, não que soubesse diferenciar estas daqueles espumantes vagabundos que davas para teus funcionários de fim de ano, mas precisas manter o padrão, beber gelado e mijar quente, e que este mijo seja composto por pelo menos 5% de alguma substância que custe mais do que 500 dólares uma garrafa.

Saído da faculdade de advocacia virou pupilo de um trambiqueiro e herdou dele os truques, os funcionários e a sua filha do meio. Tu eras o braço direito dele, e o teu braço direito foi a ruína dele também, pois foi com este braço que tu segurou o revólver que disparou o tiro fatal para teu mestre. Depois este mesmo braço que abraçou a viúva dele em sinal de pesames, horas antes de abraçares novamente ela em sinal de gozo egoísta, afinal ela não era exatamente atraente, mas tinhas que acabar sua vingança contra aquele que te adotou como quase um filho e com isso te deu pontadas de inveja. Agora a vingança estava completa, e não foi de todo mal, admita, ela tinha uma bela bunda.

Traições à tua namorada. Bebedeiras pagas com o dinheiro que tu roubaste da bolsa de tua mãe. Cigarros que tu roubastes do maço de teu pai. Ações tolas que tu fizeste e armou para que tua irmã levasse a culpa. Colas no primário. Brigas com os coleguinhas. Palavrões no prézinho. Tu que nasceu do ventre de uma mulher religiosa e de um honrado homem de família, o que tens agora? Uma vida fabulosa que será recontada como maravilhosa nos livros de história da administração. Tens um monte de desregramentos, infidelidades, desonras, crimes, desprezos, e tens uma corda no pescoço. Agora tens um terno novo que vais usar pelo resto da morte. Tens a oportunidade de brincar no fabuloso jogo dos anjos, és o convidado da noite no "Sacanear o Suicida". Tu foste ateu a vida toda e zombava de tua mãe quando ela vinha com palavras de salvação e com as histórias bestas sobre anjos, agora veja só, é um anjo que conjura a vida dentro de teu caixão de ouro. Um anjo que vai com seus poderes te fazer reviver a vida de cada uma das pessoas que tu sacaneou. Parabéns, agora é você que será sacaneado enquanto sente o que todos eles sentiram, seus frágeis sentidos serão reativados, teu coração deixa de ser de metal e vira músculo novamente para que sintas nele o desespero destes que tu pouco se importaste durante a vida toda. Tua carne dói e sangra mesmo morta, pois ao mesmo tempo em que teu cérebro assume a culpa por tudo o que arquitetou em vida, os vermes que penetram em teu caixão estarão tendo um banquete da mais pura podridão em forma de homem. É um banquete para os anjos, e um banquete para os vermes, e se tu fores realmente sádico um banquete para ti mesmo. Consegues sentir o prazer no sofrimento alheio, e no teu próprio, consegues também? Tu não eras sádico, era imbecil, era um estúpido escroto, era um nada, um verme também, toma teu banquete traste imundo, não usa da armadura que os fracos gostam de utilizar sempre, - Sou humano - tu és humano e por isso mesmo teve a chance de lutar contra teu lado negro e fazer algo de bom para o mundo. Vais fazer agora algo bom por estes vermes e bom por estes anjos. O mal e o bem se banqueteando de tua carne repetidamente, não vão deixar que ela acabe, vais ser mordido e digerido diversas e diversas vezes até que tenhas tua tortura completa. E então eles vão jogar contigo e novamente, e novamente, e novamente, até que cansem, pois tu não cansou, tu fugiu de tua culpa. Quando você perdeu tudo resolveu que não merecia mais morrer. Quando teu falo ego foi castrado e tua virilidade caiu num poço de insegurança tu em vez de se prostrar como o maioral como fez a vida toda resolveu simplesmente fugir. Agora teu dinheiro que te prende. Teu caixão será tua prisão simbólica. Teus carrascos irão se divertir em cima de teus prazeres, irão dançar sobre teu corpo, irão beber de tua alma que não custa mais do que 500 dólares, mas custa mais do que 500.000 gritos e lágrimas e pesadelos dos que passaram pelo teu caminho. Consegues sorrir agora? Espero que sim, o show está apenas começando. Tu que foste a esperança de teus pais, o menino que eles queriam ver crescer e fazer algo de importante, que eles deram amor sem pedir nada em troca, que eles tentaram educar da melhor forma possível, tu que foste fraco sempre e deixou tuas escrúpulas te dominarem, tu que foi fraco e não aceitou que sempre há uma reação, agora receberas a força dela como pequenas alfinetadas por toda tua pós-morte. Este jogo se chama "Sacaneie o Suicida", e como tu sempre quis ser a atração principal em vida, serás a atração principal também em morte.

Se tiver alguma reclamação faça agora, mas não pense em pedir perdão, pois isso só alguns poucos merecem, e o correto a se fazer nem sempre é o mais agradável. Podes achar que esta pena é grande demais, mas repense isso, pois só vais receber o que te pertence, pois os anjos estão, sim, fazendo isso para satisfazer os próprios desejos, mas não se esqueça que acima de tudo eles sempre serão justos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Palavras desconexas procurando um autor.


Jack Kerouac, irritado, irritante
Poucas viagens, mentiras e difamações
Mudou o gênero, bateu na máquina um diário
Influência viva até hoje;

Sade, odiado por quase todos, louco
Habilidades sexuais fracas, nenhum amor
Seduzia com as palavras e os toques
É considerado o amante perfeito;

Hemingway, bêbado e psicótico
Poucos amigos, odiado pelas mulheres
Lembrado até hoje pelos seus textos
Exemplo grandioso de paixão pelo viver;

Henry Miller, mentiroso, falsário
Traidor, poucos casos, muitas falácias
Renovou a linguagem erótica
Escreveu sobre seus amores como ninguém mais;

John Fante, deprimido convicto,
Pessimista extremo, péssima companhia
Filósofo da vida, palavras que esquentam
Influente até para Bukowski, renovador de existências;

Hunter S. Thompson, corretinho e caretão
Reacionário contraditório, fiel e carente
Líder da contracultura, incitou revoluções
Explodiu paradigmas e mentes fechadas;

Arthur Rimbaud, jovem mimado, filhinho de papai
Falso em suas dores, ignorante em sua vida
Desfigurou o uso das palavras, dançou com o texto
Vomitou linhas poéticas e mudou o olhar do mundo;

[este trecho foi adicionado em edição da postagem, não estava originalmente aqui]

Antes de continuar, já que falei no Buk, tomem uma pílula de suas palavras. Se meu texto falar em incitar o calor no coração de vocês, leitores, pelo menos tenham as palavras do velho safado em mente para quem sabe servir de algum consolo.

"A verdade é que somos umas monstruosidades. Se pudéssemos nos ver de verdade, saberíamos como somos ridículos com nossos intestinos retorcidos pelos quais deslizam lentamente as fezes... enquanto nos olhamos nos olhos e dizemos: ‘Te amo’. Fazemos e produzimos uma porção de porcarias, mas não peidamos perto de uma pessoa. Tudo tem um fio cômico.
Nunca me senti só. Durante um tempo fiquei numa casa, deprimido, com vontade de me suicidar, mas nunca pensei que uma pessoa podia entrar na casa e curar-me. Nem várias pessoas. A solidão não é coisa que me incomoda porque sempre tive esse terrível desejo de estar só. Sinto solidão quando estou numa festa ou num estádio cheio de gente. Cito uma frase de Ibsen: ‘Os homens mais fortes são os mais solitários’. Viu como pensa a maioria: ‘Pessoal, é noite de sexta, o que vamos fazer? Ficar aqui sentados?’. Eu respondo sim porque não tem nada lá fora. É estupidez. Gente estúpida misturada com gente estúpida. Que se estupidifiquem eles, entre eles. Nunca tive a ansiedade de cair na noite. Me escondia nos bares porque não queria me ocultar em fábricas. Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar."

Pronto. Auto-estima levantada? Aceitaram que não são nada? Excelente. Agora esqueçam o que ele disse, voltem a pensar que são alguma coisa, pois assim eu acho que são, e no fundo o Buk também achava, como demonstrou em outros textos que escrever, mas sabem como ele é... não pode perder a pose. E é justamente sobre a pose que eu vou falar. Foi por isso que adicionei este complemento. Máscaras em mãos? Então, vamos ao que eu digo. O baile vai começar. É para isso vocês estão aqui, certo?

[fim do trecho adicionado em edição]

Alguns exemplos de escritores que me alimentaram a vida inteira. Alguns exemplos de defeitos que eles tinham. Não por isso deixaram de mudar a vida dos outros. Não por isso exatamente estavam enganando. Transpunham encantamentos através de personagens de si próprios. Quem os culpa pelos defeitos? O fazem menor do que são? Quem sou eu para virar a cara para seres perfeitos em suas indelicadezas. Se não fossem suas falhas as virtudes não seriam tão especiais. Se não fossem minhas falhas quem eu seria? Seria uma fuga que os fez não expor estas falhas? Kerouac apesar de tudo foi um dos melhores amigos para vários de sua época. Sade por meios diferentes fez diversas mulheres voltarem a acreditar no prazer. Hemingway fez diversos homens buscarem novamente o amor em alguém especial. Miller fez estes mesmos homens aceitarem seus defeitos e desejarem contornar eles para satisfazer este alguém. Fante fez homens e mulheres sorrirem pensando que mesmo a vida sendo cruel, vale a penas viver ela e querer que ela seja a melhor possível. Thompson mostrou que os loucos são os melhores, e que ser careta pode ser uma forma de loucura quando se é por si só, não para agradar os outros. Rimbaud mostrou que os sentimentos são valorosos e merecem ser expressos, nem que disfarçados como lamúrias de um barco bêbado.

Estes foram alguns exemplos apenas, poderia passar dias e dias citando outros seres completamente imperfeitos, mas completamente adoráveis, mas acho que mais do que citar, é melhor eu esperar que vocês leitores por um momento parem de buscar a perfeição e comecem a buscar a compreensão. Esta postagem saiu de uma limpeza mental que estava tentando fazer ao caminhar hoje. Acabei de passar por uma monografia que partiu minha mente em diversos pedaços, estou cansado dela até agora, e não pelo processo em si, mas pelas reflexões que ela me trouxe. Um casal amargurado pelos erros que cometeram casa um individualmente no passado com outras pessoas, se encontram em uma cidade e resolvem tentar fazer o outro pagar pelo que não merecia, buscam o prazer na dor do desconhecido que divide o quarto, entre estupros e calúnias cavam um amor que não existe, que já perderam, que não souberam lidar com seus antigos parceiros, e agora querem extrair de qualquer forma de quem não merece. Outro casal no Japão se forma em busca do prazer extremo que um pode proporcionar ao outro, e ficam cegos com isso, a ponto de esquecer que são humanos, e isso acaba trazendo a morte. Excluí dois outros filmes do trabalho, mas acabei sendo influenciados por eles também. Um casal em um cruzeiro vê em outro casal um relacionamento perfeito, e invejosos tentam reproduzir a perfeição da grama do vizinho na sua, mas a grama do vizinho não era tão perfeita, só que quando se tem algo, esquecemos de aproveitar isso para tentar corrigir os defeitos a qualquer custo. Por último um casal se forma da violência e da dor, um casal descobre o masoquismo como forma de prazer, um casal cansado do tradicional acaba extrematizando em formas erradas, em vez de sair sim do tradicional, mas seguir seus instintos, não seus medos. Foi um TCC sobre medos, sobre o prazer cego, e principalmente sobre a falta de aceitação que temos com tudo e todos. Às vezes menosprezamos o esforço de nossos correlacionados por egoísmo. Temos imagens do ideal e se este ideal não é alcançado erguemos a bandeira da culpa e do desprezo. Pode ser que seu amigo não tenha conseguido te ajudar da forma que querias naquela competição, mas ele tentou, não tentou? Pode ser que sua irmã não tenha demonstrado dar tanta importância a uma novidade sua, mas quem disse que não deu mesmo? Reações são diversas, motivações são complexas, demonstrações são satisfações. E às vezes quem sabe não seja nem falta de reação, motivação ou demonstração do outro. Temos limites, temos habilidades inatas, temos pensamentos próprios, temos também falta de estímulos, mas às vezes geramos falta de estímulo nos outros e não percebemos.

Nesta questão de se relacionar adicionei ao quarteto acima um novo filme. Homens como medrosos e invejosos. Mulheres como bruxas e cruéis por natureza. O ser humano como o verdadeiro mal. Se este instinto está na gente ainda se tem chances de mudar algo, é o que o filme me perguntou. Na hora pensei que aquilo seria uma visão simplória de uma situação mostrada em cena, mas ele fazia questão de dizer não, não é, tu também é um imundo como isso que estou te mostrando. Admita para si mesmo que você não gosta de ninguém e pouco liga para os outros. Admita! Então sai do quarto e fui buscar uma rodada de água para mim e para o filme. Quando ele estava mais calminho coloquei a cabeça para pensar. Não adiantou, a noite passou e fiquei com meus questionamentos e conflitos internos latejando. Então veio o medo da verdade do filme. Então eu virei o personagem do filme em partes. Então eu quis superar isso. E digo que sim há chances para nossa espécie, enquanto houver alguém interessado em não seguir as normas que te ditam, sejam as normas de um grupo dominante, sejam as normas da arte... mas espere, não vejo como o filme querendo me ditar algo. Eram apenas provocações, certo? O papel da arte em partes é te provocar. É como aquele velho amigo que é o primeiro a te sacanear, mas também o primeiro a te dar uma força quando a coisa é séria. Por isso amo os artistas. Artistas formam a versão humana das artes. Quero amigos artísticos, amores artísticos, pensamentos artísticos, futuros artísticos, e meu papel nisso é ser poesia sempre para inspirar o que me cerca. O papel dos outros é agir igualmente. E nisso a sinceridade, o bom relacionar, o querer o melhor, mas sem exigir algo definido. Querer o melhor não implica em buscar um ideal, e sim buscar a ajuda, oferecer a ajuda, compreender falhas, compreender méritos, apoiar falhas e apoiar méritos, ensinar e aprender, amar e odiar, nunca extrematizar, dar um abraço, chorar um pouco, escrever uma carta, olhar para o céu, caminhar um pouco, acordar de manhã, fazer um chá, fazer um chá para alguém, ligar para um velho amigo, acordar com alguém, chamar alguém para olhar o céu contigo, bater uma foto e enviar para quem não te vê há tempos, mas pensa em ti há iguais tempos, recomendar um livro, se apaixonar por um livro, conhecer o autor de um livro, escrever um livro, dedicar o seu livro para alguém, querer estar com alguém, buscar a rebeldia, buscar a caretice, buscar ser você mesmo, querer ser amado pelo que é, ter filhos, não ter filhos e montar uma ONG, envelhecer ao lado de alguém, colocar flores no túmulo de quem já se foi, sorrir ao lembrar-se deste alguém que já se foi de madrugada, fazer um chá de madrugada e neste chá ver outra pessoa, se animar pois podes ter um alguém para pensar, se animar pois alguém pensa em ti, se animar por estar vivo, e o amanhã já vem.

Não deixo o transtorno de lado, minha mente continua partida em diversos pedaços. Mas eu continuo inteiro. Meu nome é Ismael, prazer.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Minutos Fatais (Cabeça Deturpada)


Trac. 01:12PM. 11 rápidos minutos de espera pelo ônibus. 11 longos minutos para se gastar olhando os pombos. "Cuidado!" alguém grita, mas não era para ele. Para ele somente os pombos. E para os pombos restos de comida que derrubaram ali perto.

Trac. 01:13PM. Começa a pensar em como os pombos não reclamam do que resta para eles comerem. Mas então lembra dos contos que andou lendo onde pessoas rotas comem e bebem e fodem e não estão nem aí para o ambiente ou as condições de higiene do local. Copos sujos viram penicos, pratos fundos viram tinas para bebidas, dentes podres viram objetos sexuais, fetiches viram o café da manhã.

Trac. 01:14PM. E lembra que com ele não, com ele não era assim. Ele precisava de um prato quente ao chegar em casa. Ou pelo menos o café passado e servido em uma caneca limpa por ele mesmo, é claro. Ele precisava de paredes e precisava de papel em branco, de preferência pautado. Ele precisava de um pouco de chilli bem temperado. Ele precisava de um pouco de qualquer coisa temperada. Uma vez leu numa revista destas que se encontra no dentista um artigo que dizia que existem várias formas de se relacionar.

Trac. 01:15PM. Existe o relacionamento temperado com sexo. Existe o sexo temperado com relacionamento. Existe relacionamento. E existe sexo. Será que este último contava como relacionamento, se nem ao menos tinha 'relacionamento' relacionado nesta categoria? Ele sabia que precisava de tempero em seu chilli, portanto seria previsto que as duas primeiras opções de relacionamento mais lhe agradavam. Então ele seria um namorado com pênis, ou um pênis enamorado? Tanto faz, ainda teria que esperar o ônibus por mais 8 min...

Trac. 01:16PM. ...7 minutos. Pombos. Pombos. Pombos. Pombos.

Trac. 01:17PM. Uma vez falaram para ele que um bom escritor tem que viver bebendo e fumando e ocasionalmente fudendo com alguém. De preferência uma mulher, claro. Se bem que tem aqueles caras que adoram fuder com os outros mas não no sentido que imaginou estarem lhe recomendando. Será que ele era mesmo um bom escritor? Gostava de ler manuscritos de amigos e todos escreviam aceitavelmente ao seu ver, e ele mesmo relendo o que escrevia achava medíocre. Mas falaram para ele diversas vezes que escrevia bem, e dizem que a voz do povo é a voz de Deus.

Trac. 01:18PM. E a voz de Deus é a voz de Jim Morrison. Leu na capa de uma revista que Jim Morrison era Deus, e Jim Morrison escrevia bem pra caralho. Uma vez uma amiga contou para ele que a coisa que mais excitava ela era ouvir uma música do Doors durante a madrugada. Já imaginou a garota sem roupas se masturbando enquanto Morrison canta "There's a killer on the road...", por mais estranho que isso seja. Vejam só, ela era gostosa, foi um pensamento agradável, não culpem ele, aposto que vocês já imaginaram pessoas em situações mais estranhas do que essa.

Trac. 01:19PM. Esta mesma amiga lhe contou uma vez que seu sonho era dar pro Jim Morrison, não importava ele ser um bêbado, brocha, estúpido, o que fosse. Ela queria dar para ele mesmo que fosse em sua fase gorda e nojenta, mesmo coberto com cicatrizes pelo corpo todo. Não precisava nem dar da forma mais tradicional possível. Uma chupada já seria um sonho, e assim ela poderia morrer feliz. Não queria mais nada da vida, virava freira se pudesse colocar a boca em volta da cabeça do pau do Jim Morrison. Não exatamente foram estas as palavras que ela utilizou, mas era isso que significava e isso que ela pensava quando, vejam só, se masturbava de madrugada enquanto Jim Morrison cantava "...his brain is squirmin' like a toad".

Trac. 01:20PM. Será que algum dia alguma guria pensaria nele desta forma? Morrer em paz após um, sei lá, beijo dele? Um toque mais atrevido? Uma brincadeira de mãos durante o cinema? Um beijo atrás do pescoço? Um abraço entre dois jovens usando poucas roupas? Uma língua girando em torno de um mamilo excitado? Um dedo abrindo as paredes molhadas de uma xoxota? Um dedo acariciando um cu mais ou menos limpo? Um pênis alisando quente as pregas de uma garota? Um jato de esperma na barriga da mesma? Um beijo de boa noite, uma noite onde passam juntos, um acordar para um café da manhã, e pronto... muito mais do que uma chupada no Jim Morrison. Muito menos do que uma garota espera dele, pois claro, ele não é o Jim Morrison, e nunca alguém ficaria satisfeito com o que for que ele fizesse. Ele é um bosta esperando um ônibus.

Trac. 01:21PM. E ainda esperando um ônibus para voltar para casa depois de mais um dia de estudos que não o levariam a lugar nenhum. Se demitiu do emprego para fazer o seu mestrado com promessas de um emprego melhor, estava acabando já suas obrigações, e até agora nada tinha aparecido. Estava ferrado, sem emprego, sem mulheres, sem bebidas, só tinha uma bela dor de cabeça decorrente dos dias sem dormir, dias para preencher o prazo dos trabalhos que pegava para conseguir dinheiro para pagar o aluguel. Dias que se perderam pois já nem sabia exatamente que dia era, ou melhor, agora sabia. Este era uma bosta perdido no tempo e em pleno sábado voltando para casa por ter ido na faculdade pensando que era segunda. Pelo menos tirou tempo para estudar o que precisava, mas diabos, como um cara consegue confundir sábado com segunda?

Trac. 01:22PM. Um minutos para pegar o ônibus, e os pombos continuavam ali, não os mesmos, iam e vinham e iam novamente. Bem como ele estava fazendo nos últimos meses. Indo e vindo e indo novamente, um ciclo sem fim em direção ao nada. Só conseguia enxergar seu próprio traseiro, e como não era cachorro nem ao menos isso era divertido, afinal não tinha a mínima vontade de se lamber, único propósito que conseguia pensar para alguém que está admirando o quão belo é o seu fudido traseiro. E o celular toca, é uma mensagem. Mais do que isso, é uma proposta. Mais do que isso, é uma chance de aperfeiçoamento como escritor. E justamente naquele dia ele havia colocado aquela cueca que tem um rasgo no lado esquerdo. Mas era um bosta mesmo...

Trac. 01:23PM. ...mas apesar de tudo era um bosta feliz, pronto para pegar um ônibus e logo mais comer alguém durante a noite, ou pelo menos tentar. E quem tenta está vivo, certo? Então ele estava vivo, não nas melhores das condições, não com uma vida perfeita, mas estava vivo. Não era otimista, pelo contrário, mas tentou apreciar este pensamento por um instante. Logo voltou ao copo meio vazio, mas naquele instante deixou de ser um bosta, e virou um pombo, comendo os restos de comida que estavam caídos naquele terminal de ônibus.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

The Piano Has Been Drinking (Not Me)

Q: What’s heaven for you?
A: Me and my wife on Rte. 66 with a pot of coffee, a cheap guitar, pawnshop tape recorder in a Motel 6, and a car that runs good parked right by the door.

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Parte de uma entrevista com Tom Waits, o cara que ouço neste momento para ilustrar estas palavras mais. Somente mais palavras mais e pianos bêbados encharcados em álcool e fumaça, mas não eu. Estou aqui só ouvindo os dedos sujos deste cara tocarem melodias, enquanto fico bebendo o que resta no copo de suco de laranja. Acabou o café e não quero exagerar o burlesco com mais cafeína. É estranho como em certos momentos você está bem e nada te atinge. Depois por alguma besteira você avança para a zona azul do cérebro. Do cérebro pois estou dando um toque belo a um ponto que só é pintado por palavras normalmente. Seria o mesmo que dizer a zona cinza do coração, mas ao inverso. Preferi a primeira opção pois me levam a crer não ter coração, tal como o Homem de Lata que não podia nem chorar que enferrujava. Mas se até Nietzsche chorou, e Schopenhauer endoidou, o que será do cara com sentimentos de uma criança com 3 anos de idade? Oras, é só um personagem me disse o corvo que está na minha janela. Na verdade a janela é minha orelha, e o corvo sou eu. E o Tom Waits continua cantando aqui do lado. Por sinal, qual o motivo daquele trecho no começo do post? Nenhum exatamente, além de claro, concordo que aquela cena descrita por ele seria uma espécie de 'heaven'. Mas se te destinam a uma sebe de futuros que fraquejam, e tu acabas embarcando neste primeiro bote que para na beirada no passeio que estás a andar, pois veja só, existe um navegador ali dentro, seguro será? Como... e ao mesmo tempo, por qual motivo assim o fazes. Quando te restam apenas filmes bestas para te animar, motivo pelo qual te dizem ser sentimental, te resta o que exatamente? O morto ergue a cabeça e diz que não está morto. O vivo abaixa a cabeça e acredita que tudo se ajusta com o passar do tempo. Nada se ajusta com a cabeça baixa, ou quando assim o fazem, o vivo não está vendo. O morto aponta, mas mortos não falam, e o apontar já sabes que é falho, não é mesmo meu amigo? Leonard Cohen cantou sobre o futuro, deu visões pessimistas, cantou Suzanne com otimismo, encantou Suzanne com animalismo, de carne fez a carne, e oras, não deixou os problemas quebrarem sua esperança. Mas foi para longe meditar. Estes mesmo tolos, imbecis, estes que em certo momento acreditaram terem a força, depois de um tempo abaixaram a cabeça. E os mortos continuam a não falar. Mas alguns conseguiram superar. O que resta ao cara que escreve de madrugada, com a luz baixa, com o copo agora vazio? Resta fazer mais café, pois ele trai até seus medos, e vai lá se encher com mais cafeína, enquanto o piano continua bebendo e bebendo, mas não ele. Não ele... ele não bebe, só lamenta que os outros estão a beber, e assim percebe que se deixou atingir por falácias, e que não é nenhum robô, e então bebe, café mas bebe, pois isso também é considerado bebida, certo? E então bêbado com energia vital de almas alheias se engana que está novamente bem. E se engana que em algum momento estará lá, com sua esposa, na rota 66 com um pote de café, uma guitarra barata, um gravador cassete em um motel vagabundo de beira de estrada, e um carro bacana estacionado do lado de fora. Dramas e sonhos. Canções de blues e de amor tocadas naquele mesmo piano que nomeia este texto parte pessoal, parte ficcional. Qual é qual? Puxe uma cadeira e acenda o meu cachimbo que eu te conto, mas é uma longa história... amigo, tens tempo?


sábado, 31 de outubro de 2009

c8h10n4o2 para viagem (canção noturna nº 17)



Um pouco de insegurança no meu cachimbo
E uma caixa de fósforos já queimados
Como farei para perfumar o ambiente?

Arranco minha pele com teus restos e queimo
Pois tal incenso não precisa de chamas para acender
Pois tal incenso já veio aceso da loja
Onde não se vendem sonhos muito menos ilusões

Óleos corporais, escamações noturnas.
Flâmulas temporais, tecidos rasgados, sujeira
Suor inexistente. Marcas de velhos acidentes, dentes
Pelos púbicos, líquido digestivo, cálculos renais

Retornando do banheiro pingo óleo diesel fracionado
Azeite resfriado, óleo de baleia, vampores em
Meu cachimbo que não se acenderá jamais

E olhos através da janela, as luzes me cegam, já é madrugada
O que aconteceu hoje não sei, perdi minhas memórias
Já é madrugada. Sem fósforos novos para me queimar
Cuspo moedas. Sem motivos para não mais estar, fecho os olhos
E quando abro novemente já é uma nova tarde e te pergunto...

Dormiu bem cabeça oca?

"I lit  a thin  green  candle, to make  you jealous of me. But the room just filled up with mosquitos, they heard that my body was free. Then I took the dust of a long sleepless night and I put it in your little shoe. And then I confess that I tortured the dress that you wore for the world to look through." - Leonard Cohen

domingo, 18 de outubro de 2009

Terceiro olho com vista para o mar.

 http://4.bp.blogspot.com/_lJNBT4buTZs/ScEdZr_SnlI/AAAAAAAAAOU/zPAcjnslsWQ/s400/yin-yang.jpg
Sou escravo do yin-yang. Este símbolo que se origina do Tao normalmente é confundido com um símbolo de paz, e não deixa de ser, mas explicarei de forma simplória o seu significado. Ele é a representação de duas forças complementares e ao mesmo tempo únicas, é a unidade, não há separação entre elas mesmo ambas sendo distintas entre si. Vivemos em movimento, constantes mutações, sendo que o Yang represente o lado masculino do homem, o lado quente, claro, brilhante, racional, e o Yin representa o lado feminino do homem, o lado frio, o lado noturno, escuro, sentimental. Vivemos em alternâncias e elevamos estes conceitos ao extremo gerando preconceitos tanto entre os humanos conservadores como os desviantes de moralidade. Mas deixando esta questão de lado, a postagem volta ao seu início onde me afirmo escravo do yin-yang. Diversas vezes fui acusado de ser arrogante. Diversas vezes fui acusado de ser irracional. O yin-yang demonstra isso com clareza, ele é a representação mais pura do homem, pois neste círculo temos os extremos em firme contato e dentro do ponto quase de final de cada um de nossos lados vemos o outro lado sempre presente. Quando somos pensadores de certa forma fica um questionamento latente dizendo se não deveríamos estar apenas existindo, e quando apenas existimos sempre acabamos em certo ponto buscando algum julgamento. Por qual motivo não posso doutrinar os animais como humanos? Por qual motivo não posso me masturbar em praça quando vejo uma mulher atraente? Estes extremos nunca serão alcançados em plenitude, pois sempre me conceituando na explicação, quando saio por aí com amigos ou sozinho, sem racionalizar as coisas, apenas vivendo e sentindo e amando, em dado momento estarei sentindo a falta do pensamento, e o quão correto é abandonar meus conhecimentos em prol da sabedoria existencial? E quando estou racionalizando e fazendo justiça a minha inteligência privilegiada em dado momento me sinto culpado e necessitado de parar de pensar e simplesmente existir, sinto falta do natural e do nada neste tudo de pensamentos. Palavras são malignas, mas isso quando pensamos nela, pois o mal e o bem são a mesma coisa em teoria, quem os define somos nós ao julgar ações e conceitos. Têm-se o dom de comunicar com palavras, então até que ponto é injusto ao nosso instinto fazer isso. E se temos o instinto por qual motivo precisamos a todo o momento estar vivendo em sintonia com palavras. O belo é arrogante com o não tão belo assim. O esperto é arrogante com o não tão esperto assim. O inteligente é arrogante com o não tão inteligente assim. O sábio é arrogante com o seu poder cerebral. E se formos escravos do cérebro? Será uma prova para alcançar o nirvana? O nirvana no yin-yang seria um ponto centro, onde não se depende mais da fruição da vida, e sim do existir neste meio. Mas o homem deve viver o caminho do homem, e enquanto homem nos tornamos dependentes desta fruição. A maior parte das pessoas não admite isso e por isso gosta de personagens lineares. Novelas fazem sucesso com o bem e o mal expostos claramente. A sociedade classifica o bem como a exclusão de todos os conceitos que acha desagradável para o seu ego. Somos apenas egoístas. Alguns admitem isso, mas na hora que são questionados se consideram diferentes. Ninguém é diferente, nossas personalidades são apenas formas de nos enganar e parecer mais justos, individualizados, e isso é o correto para a sociedade. Como o homem que quer se mostrar individual, pois acha que isso é superior, não enxerga que em qualquer caminho feito com o coração a superioridade é justamente o caminho contrário? Não deveríamos estar preocupados em nos tornar individuais e exclusivos, e sim todos a mesma coisa, mas uma mesma coisa mais justa, não uma mesma coisa estereotipada e forjada por padrões comportamentais que só fazem bem ao controle humano. Para ver como estamos já dominados por padrões e mensagens o descontrole é visto como errôneo. Perder o controle é algo que ninguém quer, então mudo o ângulo de visão da pergunta, queremos ser controlados? Ser você mesmo quando você não sabe o que é não passa de cair numa outra forma de controle, o controle do ego. Queremos ser controlados? Controlamos os outros diariamente e gostamos disso, e não há nada de errado nisso, mas quando fazemos pelo instinto, o problema é que a maior parte dos atos que pensamos ser instintivos na verdade já foram mimetizados para assim parecer e assim parecer bom. Como descobrir nosso cérebro dos conceitos que nos foram dados desde novos por diversas formas de domínio de nossa existência? Não temos como voltar à natureza selvagem, nem seria justo com o que evoluímos até hoje, mas não é nada mais justo também continuar como estamos agora. Voltando novamente ao escravo do yin-yang, afinal este texto disfarçado de questionamento ideológico por mais que tenha intenções além desta base, não se perde de ser uma expurgação de meus próprios dogmas. Alterno entre clarividências de espiritualidade com arrogâncias racionais. Enquanto inteligentes tenho inveja do meu lado sábio e enquanto sábio tenho inveja do meu lado inteligente. Seja aberto e admita isso, creio ser um passo importante para alcançar o seu centro. Enquanto isso vivemos um ensaio do caos e invertemos valores, nossa não-dualidade toma forma (de alguma forma) através da informação que flui pelas nossas cabeças, ao mesmo tempo em que negamos esta corrente e fazemos tudo para aumentar o tamanho de nosso falo. Somos os mais evoluídos, os mais inteligentes, temos tecnologia, mas ainda somos macacos, e não sabemos lidar com este contraste. A resposta está em algum lugar central a isso tudo, não tenho idéia de onde seja este centro, por isso continuo vivendo meu fluxo constante de arrogância e amor, racionalização e sentimentos, ego e sinceridade. Até mais, e obrigado pela preferência (e pelos peixes!).

sábado, 17 de outubro de 2009

Cartase da escravidão cultural pelo Sr. LoveFuck aos servos renascentistas expatriados: Parte I

Schiele teve um pai doido
Cada dia aparecem mais filmes para ver.
Cada dia aparecem mais livros para ler.
Cada dia aparecem mais discos para ouvir.
Cada dia desaparecem mais horas para amar.

Amar no sentido romântico, banalizado, inventando.
Vemos o tempo passando e nossas vidas acabando.
A cada segundo vivido é menos um segundo contigo.
E quem é você? Por qual motivo perco meu tempo pensando?

Existem outras formas de amar. Mas cadê? Por quê?
Existem? A cada dia mais filmes, livros, discos.
A cada dia menos amor, menos corpo, menos sentimento.
Menos alma. Menor a preocupação com o certo.

Nem me preocupo mais se este poema está correto.
Só não quero saber o que vou fazer amanhã.
Menos tempo para o amanhã e para o tempo.
Mais tempo para você. Se você estivesse aqui...
Mas aqui só estão meus discos, livros, filmes, espaços vazios.

Cada dia aparecem mais motivos para chorar.

"Sim, o eterno retorno significa que, cada vez que você escolhe uma ação, deve estar disposto a escolhê-la por toda a eternidade. O mesmo se dá com cada ação não realizada, cada pensamento natimorto. Toda a vida não vivida ficará latejando dentro de você, invivida por toda a eternidade." - Irvin Yalom

sábado, 10 de outubro de 2009

Jornal das 7.



Está começando o Jornal da Noite primeira edição.
Agora fiquem com as manchetes do dia.
Ciência destrói a Descoberta.
Religião destrói a Espiritualidade.
Políticos destroem a Liberdade.
Advogados destroem a Legalidade.
Mídia destrói a Informação.
Médicos destroem a Cura.
Está tudo ao contrário no mundo em que vivemos?
Se você tiver sorte... boa noite!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Besteiras para com a Música lavar em azul.

 

Você irá nascer, e pessoas estão ali a te esperar
Sorrisos nos rostos, esperanças de um futuro brilhante
Ou ao menos o zagueiro do melhor time da cidade
Eles vão pela natureza tentar estar ali por toda tua vida
E no final ela é a única que não te abandona.

Você irá ficar maior, aprender a ler e escrever
Na escola irão te dar os parabéns pela sua inteligência
Outros irão te odiar e te julgar pelo mesmo motivo
Teus colegas irão te chamar para brincar, sorrisos e bonecos
Mas no final ela é a única que não te abandona.

Você começará a reparar nas meninas, bonitas e simpáticas
Depois você irá começar a reparar nas mesmas, de outra forma
Você começará a reparar nas meninas, sensuais e tentadoras
Em algum momento você dirá 'Eu te amo' pela primeira vez
E no final ela é a única que não te abandona.

Você verá que outra virão e irão, poucas realmente importarão
Estás prestes a acabar a escola, vem uns porres, vem experiências
Tens seus melhores amigos ,aqueles que dizem ser eternos,
Pois nesta idade que se formam as verdadeiras amizadas
E no final ela é a única que não te abandona.

Você entrará na faculdade, sua vida toma um rumo, é seu futuro ali
Novas visões, novas idéias, mais alimento intelectual para os fracos
Mais bebidas, mais destruição do corpo e da alma, eles te moldam
E pronto, estás no ponto ideal para sair dali, ser um homem de negócios
E no final ela é a única que não te abandona.

Você faz amizades no trabalho, você cumprimenta eles todos os dias
Te chamam para festas, contam piadas sobre o chefe
Você dorme com a mulher do cara que senta na mesa ao lado
Chega a sexta, todo mundo contente, é hora de ir para casa ver TV
E no final ela é a única que não te abandona.

Você evolui na empresa, quem sabe mude para outra melhor
Quem sabe ano que vem ganhe aumento, começa a pensar em casamento
Se casa com a mais bela da faculdade, aquela que você amará eternamente
Aquela que você trairá assim que uma belezinha na rua te cantar
E no final ela é a única que não te abandona.

Você terá sucesso profissional, sairá no jornal local
Quem sabe um dia apareça nas páginas amarelas de uma revisa importante
Seja citado futuramente em boas publicações, receba prêmios
Sorrisos invejosos chegando, mãos raivosas apertando, você é um sucesso
E no final ela é a única que não te abandona.

Você terá filhos, vais criar eles para serem melhor do que você
Irá enxer eles de dogmas, formará eles na sua religião, dirá que você sabe tudo
Eles irão contra o que tu diz, você ficará bravo, mas um dia entenderá
É a juventude, rebeldia, você então pensa 'eu tenho uma família feliz afinal'
E no final ela é a única que não te abandona.

Você irá envelhecer ao lado de sua esposa, que tu nem ao menos ama mais
Quem sabe se separem e você morra como um velho amargo
Quem sabe vocês fiquem juntos até a morte e você morra como um velho amargo
Quem sabe o seu funeral seja o mais belo da cidade cheia de pessoas amargas
E no final ela é a única que não te abandona.

Ela estará lá mesmo quando sua alma tirar a armadura pesada que carregou durante todos os anos para finalmente conseguir se juntar a essência universal que sempre esteve do teu lado mas você negou constantemente pois queria uma vida material, cheia de fama e riquezas, mulheres e destrezas, amigos e avarezas, reconhecimento e pouco importa tudo o mais de besteiras que você conquistou amargurando aos outros e a ti mesmo. Mas agora você morreu, sua esposa estará com outro homem e lembrará de você pela forma que você se portava e não pelo que você realmente era. Seus filhos terão suas próprias vidas de felicidades e tristezas e lembrarão de você pela forma que você se portava e não pelo que você realmente era. Seus amigos irão brindar uma vez ou outra em teu nome e lembrarão de você pela forma que você se portava e não pelo que você realmente era. Teus colegas de trabalho irão fazer comentários engraçados sobre fatos do passado sempre com um fundo de desprezo por ti e lembrarão de você pela forma que você se portava e não pelo que você realmente era. Seus influenciados e seus futuros admiradores irão mirar em teus exemplos possivelmente de um jeito errado pois/e lembrarão de você pela forma que você se portava e não pelo que você realmente era. Você será bonito e feio, forte e fraco, irresponsável e sábio, ignorante e inteligente, temeroso e ousado, e diversas outras características, e diversas outras combinações, e diversas outras imagens, e diversos outros personagens, e quem será você mesmo? Você tem certeza que alguém realmente falou contigo algum dia? Fecho o livro de tua vida e me despeço, pois tudo o que eu posso fazer é ser eu mesmo, independente do que isso seja. Também vou te abandonar, mas sorria, pois você já sabe que no final ao fundo sempre tiveste o tudo e o nada no aqui e no agora, quem sabe outra hora, mas por hora morres pelos mesmos caminhos que antes choravas, tivesses ele mas desprezaste, o amor real, e ele, onde ficava? Chega e senta e aguenta. É o final...

E no final ela é a única que não te abandona.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Innuendo.




[o vento continua soprando forte naquele banco de praça, tem espaço para suas pernas, mas você já está cansado de bem aproveitar ele, busca motivos para abaixar as pernas, sente motivos, imagina motivos, deseja motivos, engole motivos, ouve motivos, sonha motivos, chora motivos, mas os reais motivos não vêem além do que possibilidades e reais possibilidades, mas suas pernas continuam erguidas pois o espaço tem que ser ocupado, é este teu papel no universo. aguardar um outro metrônomo como o que tens no peito. aguardar que outro corpo faça o lugar de tuas pernas. aguardar carne para onde possas liberar calor pelas pontas de teus dedos. tuas pernas cansam. teu metrônomo chora. teus olhos ardem e procuram um novo ponto de foco naquela madrugada gelada naquele bando de praça. você sente? que bom, estás vivo, ainda á muito tempo para esperar que algo seja feito, você tem suas ações na manga, precisa somente de mãos ali dentro, de encontro ao teu braço, ao lado de tuas mãos, e aquela expressão que energizará teu metrônomo.]

Olhando pela janela ele pensava se não seria melhor para sua existência se algo acontecesse para acabar com sua história.
O corpo ainda teve tempo de virar no ar, os cacos de vidro desorganizadamente se prostaram num painel, o cérebro ativo ainda.
Não queria morrer, queria apenas saber como seria esta sensação de ter sua vida roubada pela morte que logo ali o admirava.
Virou história como sempre queria, morreu como sempre imaginara, viveu como sempre apaixonado foi.
Um belo acidente de carro para as páginas do jornal do dia seguinte, a vida na terra continua, e continua querendo tragédias.
Numa estrada o carro se perdeu, a janela se partiu em pedaços, seu corpo foi violentamente esmagado contra um muro.
E estes foram seus últimos pensamentos de fato, mal sabia que estava realmente chegando os créditos, a música final.
Seria apenas o encerramento ocasionado pelo seu destino.
Não eram desejos suicidas, ele nunca que iria se matar ou sequer pensar em como seria bom isso.
Pensava como seria ter alguns poucos segundos para perceber que logo chegariam os créditos de sua vida, e a música final.
Algo não forçado por ele, que não fosse previamente desejado, simplesmente acontecesse.
Olhando pela janela ele pensava se não seria melhor para sua existência se algo acontecesse para acabar com sua história.

[essa é a sensação de ter sua mente escorrendo gélida para fora de ti mesmo, pelo seu ouvido, e se encontrando com seus sentimentos que estão vestidos como uma velha roupa. por entre metáforas e processos complexos, não passa tudo isso de real transfiguração do que tu sente. tens direito de desejar, e direito de se frustrar. tens direito de confiar que pensando forte em algo, este algo acontecerá. tens direito de acreditar no futuro, tens direito de desejar diversas coisas. e neste momento você desejaria somente uma coisa. e algo por aí sabe o que se trata esta uma coisa, mas não está ali, contigo. continua esperando, verdadeiramente. e confia. confia. confia.]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Recado para mim mesmo:

pessoas são compostas de corpo e espírito. algumas não possuem a segunda parte, são apenas corpos. as outras utilizam os corpos para sua única utilidade real, criar livros e filmes. o resto não importa. é falsidade e hipocrisia. corpos em excesso e sem utilidade só ocupam espaço inútil no mundo. um mundo sem corpos poderia ser muito mais belo, pois teriamos a essência, as formas, as vidas que importam, a beleza natural, e espíritos vivos por aí. se não tivessemos corpos os livros e músicas seriam propagados de uma forma menos orgânica. seriamos todos únicos, uma verdade universal, sem ego, ganância, furtos, sentimentos machucados, ações planejadas para um caos falso, corpos sufocando espíritos... corpos imbecis. que se consumam aos extremos, que se dopem, que sejam forçados ao abuso material. que sejam estuprados e jogados por aí, é um presente aos que não tem espírito vivaz. para os pecadores a tortura é a única forma de contemplação ao supremo, ao essencial.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

insone.


Rockabilly, é isso que ele está ouvindo neste momento.
Sai do banheiro, boca limpa, dentes escovados. Não mais poderiam dizer que passou as últimas horas bebendo whisky.
Vai na cozinha, e prepara um pouco de café, precioso líquido que agora se faz necessário.
Agora e para todo o sempre, até a hora de vossa morte.
Amém, disseram para ele quando novo. Ele acreditou, e mentindo estaria se falasse que não pensa mais no assunto.
O tolo está pensando neste momento. Pensando em amor, em amar, e também pensando se vai colocar açúcar no seu café.
Não coloca, já chega a cafeína, não quer mais um estimulante ali, afinal o "vagabundo" tem que trabalhar amanhã.
Mas ainda é hoje, troca o disco, agora ele vai para um jazz nervoso, representação de seu interior neste momento.
Quer parar de pensar em besteiras, mas se vê sem sono, sem motivação, sem...
Sem tudo o que deveria estar com, e com tudo o que deveria estar sem. Um inverso do reverso. Mas isso não seria o correto?
Desistiu de pedir desculpas por ter problemas, todos têm, por qual motivo implicam de ele ter os dele, vejam que bela coleção.
Pega um papel e começa a rabiscar um desenho. Não desenha porcaria nenhuma, mas acha que desenha.
Deveria ficar só nos textos, mas cansou de tentar mudar o mundo, faz músicas então, mas nisso não é o melhor no que faz.
Uma noite insone não é simplesmente passar a madrugada acordado – para isso cabem várias outras designações.
E as horas passam, e quando vê o dia já está nascendo. Pena que é só no filme que passa na TV que deixou no mudo.
Lá fora ainda é noite, e vai ficar assim por um bom tempo. Na mente de quem tem certeza, as horas demoram a passar.
A depressão aumenta, a dor no estômago também. Te falei que ele está com dor no estômago? No estômago e na cabeça.
Não toma uma aspirina pois elas não adiantam mais. Então pega lá mais uma caneca de café, entorna, e se joga na cama.
Olha para o teto e começa a pensar que amanhã tem que acordar cedo. O que adianta pensar nisso agora?
Queria não estar sozinho na cama. Ou será que é só mentira dele? Será que ele não se coloca nestas situações por prazer?
Isso seria masoquismo, e como bom poeta, depressão sim, prazer na dor jamais, ou pelo menos mantenha a pose que não.
Reclame. Ele reclama. Sinta. Ele sente. Ame. Ele ama. Viva. Ele vive.
Morra. Ele não morre, ainda não é a hora. Nosso herói pensa diversas vezes ao dia como será o amanhã, mas ele só tem a certeza do hoje, ou de como queria que fosse.
Mas não é como ele queria. E ele entende isso. Mas não perde as esperanças, a qualquer hora as coisas podem mudar.
A qualquer hora a cama pode não estar mais vazia. A qualquer hora os livros não serão mais rascunhos.
Poderá significar algo. A qualquer hora ele pode estar morto. Mas agora está vivo, e continua confiante em si mesmo.
Escova os dentes novamente. Agora com um sorriso irônico nos lábios, comendo o recheio das lembranças.
Colocando de volta no pacote as bolachas, limpando o canto da boca sujo de desejo, respirando ainda com uma certa dor interna, não do estômago, mas sim da ansiedade pelas boas novas. Aquelas que farão ele se contentar até que ache um novo motivo para voltar a ser chato.
E ele terá. Está chegando logo ali, junto com a Insônia que foi buscar uma pizza mas já está de volta.
Boca limpa novamente, mas a mente disfarçou por um momento, mas não está bem. Novos pensamentos, novas horas lentas correndo.
Enquanto os olhos sangram, o coração continua batendo, e tudo fará sentido no fim da noite...

[essa é uma obra de ficção, apesar de tudo ter acontecido em alguma vida real.]

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Como achei a cura para a gripe após operar meu próprio cérebro.


Desde que parei de me preocupar com a gripe, nunca mais fiquei gripado. Eis a cura, agora vamos aos motivos pelo qual estou falando sobre isso, e toda a base por trás desta simples, quase humorística afirmação. Claro que ninguém irá me levar a sério realmente, nem pretendo. Essa minha cura pode ser apenas coincidência, bem como pode ir por água abaixo a qualquer momento. Mas o fato é que desde que parei de pensar que ficaria gripado por qualquer besteira, nunca mais entrei numa gripe daquelas profundas. Andei na chuva quando estava com vontade, não troquei a roupa molhada quando não queria, tomei bebidas geladas no inverno, andei na neve de bermudas, dormi numa floresta ventando... falaram que eu não deveria, mas como sou averso a deveres preferi ir pelo meu próprio querer. Foi quebrar meu ego a favor do meu eu.
Num recente estímulo a conversar comigo mesmo, em certo momento do transe que parecia perdido, aceitei o momento e resolvi parar de buscar respostas, só sentir. Foi aí então que consegui visualizar os elos que me levam a todas as pessoas que já tive contato em vida. Caminhando por entre esta galeria de vínculos, cheguei a pessoas que têm me causado algo mais recentemente, e vi que mesmo as que eu mantinha sentimentos ruins, ali com meu eu nu minha sensação a elas se mostravam diferentes do que normalmente assumo, novamente por culpa do meu ego, esta máscara que dita como eu devo considerar os outros e me fazer vivo para que os outros me considerarem um algo programado, um habitante de suas vidas.
Foi estando desperto por estes estímulos, então, que notei o quanto gosto de muitas pessoas, e o quanto tenho manipulado até a mim mesmo para assumir uma característica diferente quanto a elas na realidade existencial. Por qual motivo eu estava tão bem naquele momento com essas pessoas, e na vida cotidiana, mesmo quando sozinho e pensativo, eu acabava tendo sensações ruins, tristezas, depressões, saudades que machucam, e toda esta gama de máscaras envenenadas? Lembrei então de minha gripe.
Quando parei de tentar resolver a gripe antes mesmo de ela chegar, parei de ficar ruim por ela. Às vezes tenho tosse, às vezes espirro, às vezes meu nariz tranca por um tempo, mas aceito isso como pequenas variações do corpo decorrente de motivações que não compreenderia sem pensar cientificamente. Assim deveríamos tratar nossas relações humanas. Estabelecer contato com pessoas acaba sendo experiência, e a partir do momento que você cria esse contato, ela entra em sua galeria. Esse contato poderá evoluir em relações, com momentos bons ou ruins, ganhos e perdas, compreensão e silêncio. Nos preocupamos em agradar os outros, ou seja, criamos um pensamento sobre como os outros irão reagir a tais e tais coisas. Que direito temos de supor como o outro irá se sentir em relação ao que tu és e fazes? Por mais que as intenções sejam boas em muitos casos, nossas relações são pessoais, interdepentes, claro, por isso em vez da preocupação o melhor caminho é a honestidade. Os que desejam controle temem o conhecimento alheio, e a virtude do homem honesto. Ser honesto, viver o que desejas, quebrar seu ego e não querer resolver as situações com controle é a melhor forma de resolver os problemas da forma mais nobre, através dos sentimentos.
Fiz estas conclusões em mais um momento de caminhada, onde pude filtrar as experiências e começar a buscar a sensação pura também na realidade sã. Sentimentos nomeados, como amor, ódio, raiva, desejo, carinho, saudades são criações de nosso cérebro. Sentimentos reais só serão reais através da honestidade, sem máscaras. Deixe de se preocupar com a dor em você e nos outros, se preocupe com o sentir, e com o perceber das reais ligações que temos uns com os outros. Assim terás o amor real, não o amor romântico, filosófico, ideal. A única forma de não machucar os outros é deixar que eles aceitem a tua honestidade, e para isso sede honesto consigo mesmo. Tuas dores assim também serão reais, e nunca mais ficarás gripado, de corpo, e de alma.

"That unfortunate time is ending when suffering was considered to be an inevitable part of life. (Este tempo desafortunado terá fim quando sofrimento for considerado parte inevitável da vida.)"
- David Lynch

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Decálogo.


1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.

Sugestão de dez princípios por Bertrand Russell.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Ele está se tornando melhor, não veem?


Não gostaria de estar aqui, mas ia me sentir mal pelo resto da vida se não fizesse esta visita. Estive afastado de minha cidade por tempos, e quando retorno fico sabendo das notícias. Meu velho amigo cedeu ao que já demonstrava ser seu caminho, não aguentou a pressão, e foi declarado humano. Esta visita é o mínimo que eu poderia fazer por ele. Engoli o medo e resolvi me dirigir ao Mundo Real. Agora é tarde para desistir, já fecharam as portas atrás de mim, sempre em frente como diria meu pai. Vejam só, então este é o pátio da Realidade, todos estes seres sentados, ou andando, com suas expressões de preocupações, seus sentimentos verdadeiros que só duram o tempo de serem frustrados por outro alguém com também verdadeiros sentimentos. Todas estas pessoas saindo de seus quartos para fazer algo neste local. Uns brincam de médico, outros brincam de artistas, é triste. Então olho para a direita e está lá, meu amigo, velho Conformismo. Não mudou nada, ainda continua com o sorriso sereno de quem busca sempre a opção mais fácil. Sinto pena dele, e de todos que estão aqui, sinto como se...

- Amigo! É você.

Sim, sou eu. Ele me reconheceu e está vindo para cá. Não consigo falar nada, mesmo tendo muito para dizer. Seu rosto me rouba as energias, portanto escuto. Fala.

- Vejo que estás assustado. Não é para menos, achei que nunca iria vir para cá, mas veja só, estou preso com todos os outros. Todos estão aqui, e não sei, acho que me resta um pingo de ousadia e visão, tenho medo de perder isso logo. Por enquanto ainda te vejo e te entendo, mas os outros aqui, todos, caramba, não sei nem como dizer. Todos aqui vivem seus dias achando que isso é nosso destino e nada pode ser feito. Eu que me chamo Conformismo pareço ser o único que ainda mantém a insanidade em dia, mesmo que debilitada. Mas como já disse, logo devo perder. Posso ser sincero contigo?

Pode.

- Não luto mais contra isso. Desisti de mudar e aceito meu nome. Cansei de defender que não esperassem que lhes dissessem o que fazer, cansei de viver a vida por mim mesmo. Temos regras aqui, e seres mais poderosos. Os guardas que te guiaram aqui para dentro, por exemplo. Como viver lutando pelo que acredito se isso parece desagradar tantos outros? Você ainda usa sua imaginação, não é mesmo? A minha se esgotou. Tentei ser perfeito, e acabei aqui nesta realidade. Todos aqui tentam ser perfeitos, e mesmo que pensem que estão por si, a perfeição já vem de certo ideal externo.

Não sou perfeito, nem quero. Não entendo o motivo pelo qual queres ser perfeito amigo, seja você mesmo, perfeito na sua imperfeição...

- Comecei a pensar que estava mesmo sendo perfeito, a renegar o amador, queria profissionalismo, deixei a graça de lado, queria risadas precisas e fabricadas. Tive medo de errar, entrei na perfeição. “Bem-vindo ao Mundo Real”, me falaram. Sorri para isso, os guardas então me pegaram. Os chefes me deram uma entrada para cá. Tenho meu quarto, fiz família aqui
dentro, está tudo tão bem.

Espera, o discurso está mudando. Ele falou que não queria perder sua insanidade, mas a cada momento parece estar mais seguro do que fala. Ele está...

- Estou me sentindo realizado. Logo estarei ali sentado esperando minha morte. Veja, minha vida é perfeita aqui dentro.

Não.

- Sim, tenho tudo o que quero. Temos TV aqui dentro, o que mais precisamos?

Viver?

- Não faço mais besteiras, sou um homem correto e reabilitado. Orgulho-me de meu conforto. Tantas vezes disse sim, agora o não me seduz. Não tentar coisas novas, para quê? Vamos morrer um dia. Melhor fazer o certo, seguir os passos já traçados, inovação é para os loucos.

Qual o problema em ser louco?

- Aqui neste mundo real as coisas são tão mais fáceis. Resolvo meus problemas dando um passo para trás, não encarando o novo, o antigo era funcional até certo ponto. Você fica lá fora, naquele hospício, com sua maldita liberdade, tendo que lidar com situações inéditas, e com isso os problemas são maiores.

Maiores, mas quanto maior o problema, maior a recompensa. Prefiro tomar decisões firmes e lutar por elas a me voltar ao mais fácil, ter também problemas, mas não evoluir com eles. Amigo, o que ocorre contigo? Desde que cheguei você está mudando aos poucos. Será que minha demência te assusta e acelera sua queda para a permanente estadia aqui no Mundo Real?

- Realidade!

Loucura!

- Conforto!

Nonsense!

- E tu ficas aí com este semblante de terror, não fala comigo. Tu és louco?

Sou. Juro que queria falar contigo, mas esta tua certeza de felicidade que não passa de um disfarce para teus profundos pesares me impede de comunicar o que sinto. Esta tua normalidade não condiz com minha complexidade que te tenta, mas te afasta. Como vieram te pegar? Trancar aqui. Estavas ainda com um brilho no olhar quando cheguei, mas do nada só vejo uma fumaça cinza saindo de teus poros. Teu colorido não me parece mais vívido, por mais que se eu te perguntar vais estar radiante. Não creio que minha mão tenha forças para te arrastar daqui, nem quero tentar. Não me diz respeito a tua normalidade. Você teria que quebrar ela por conta própria, mas teu nome é Conformismo, isso pouco me conforta.

- Certo, não vais falar.

Não posso, quando falo faço lambança, e isso seria demais para ti. Não és livre para errar, as falhas te machucam mais do que espinhos. Entendi que queres ser perfeito, o que resta para mim além de torcer que percebas a beleza que há na possibilidade de falhar? Com esta possibilidade os acertos se fazem muito mais deliciosos.

- O que mesmo tu falavas sobre viver?

Viver é experimentar. Dar uma chance a uma nova possibilidade. Tem a ver com trabalhar com o que você tem na sua frente e transformar tudo de embaraçoso, medonho e estúpido da sua vida em pontos a favor.

- Não importa. Adeus.

Adeus. Não poderia mais ficar neste local mesmo. Já notaram que minha presença aqui é um mal para esta organização tão bem disfarçada como o correto. Mais alguns minutos e os que cuidam dela viriam pessoalmente me expulsar. De volta ao espaço aberto, sem paredes, vou achar meus semelhantes e juntos vamos rumo ao infinito. Conhecer novos lugares. Sentir novas sensações. Se abrir a novos amores. Superar as velhas dores. Estou livre e isso é que importa. Estou vivo e não vejo a hora de experimentar o literal deste presente, no futuro, com o que aprendi no passado. Guardo minhas lembranças na mala que sempre me acompanha, e começo a caminhar. Dou a mão a quem vem ao lado. O dia está lindo. Olho para trás e sinto falta do Conformismo, mas sei que ele vai ficar bem. Lá dentro da Realidade existem muitas pessoas que precisam dele, não as culpo, só espero que um dia elas consigam abrir os olhos e ver o quão belo é aqui fora. Continuo andando, resolvo cantarolar uma velha canção sobre tristeza, pois não há nada de errado com ela, como muitos pensam. No final sei que estarei alegre. Venceremos! E a isso brindaremos! E beberemos! Saúde!

domingo, 9 de agosto de 2009

Duelo


A poeira é levada pelo vento quente,
Ao longe nada se vê além dos casebres mal acabados
Mas no meio da estrada que leva até eles
Em pé, olhando na minha direção, está meu algoz

Eu não tenho armas, eu não tenho nada
Eu tenho a roupa do corpo que de nada me protege
Ele tem armas de fogo
Suas botas se arrastam na poeira, ao longe

Eu não posso fugir, tenho de enfrentar
Só não tenho a mínima idéia de como será
Sinto sede, a garganta seca arranha
Meu suor escorre e sinto o gosto salgado

Ao longe, ele não se move, a fumaça de seu cigarro sim
Ele saca e dispara um único tiro, e erra
Foi proposital, um aviso
Apenas para se divertir

Não consigo lembrar por que chegamos a essa situação
Morrer, eu não sabia que seria tão dramático
Sem chances, tão covardemente
Sem direito a defesa, morrer como um cão

Ouço o segundo tiro, e sinto-o logo em seguida
Minha roupa se mancha de vermelho
Na altura do peito
A cor parece tão significativa

Eu caio, de uma única vez
O estranho se aproxima, posiciona sua arma
Na direção da minha cabeça
Pergunto o seu nome

DESTINO, ele diz, e atira.
Nada acontece... Ainda estou vivo.
O estranho ainda está lá e diz:
"Vá embora, seu lugar não é aqui"

E, cambaleando, eu sigo em frente
Tendo em mente que estou vivo
Apenas porque o Destino quis
E que o deixei para trás.

domingo, 26 de julho de 2009

1970's


You have a great taste in music and a particular love for rock. You love to chill and party with your friends, and most consider you the epitome of "cool" because of your rebellious nature and sense of adventure for life. You're trendy in style and have strong opinions about religion and politics. You are against "the man" and the injustices of the world and tend to have a guard up with people you don't know very well. But you save your deepest emotions and romantic side for that special someone.You have a lot of inner convictions and beliefs, but definitely come across as extremely easy-going and flexible. You are actually a good mixture of the two, but once in a while you let your laziness get the best of you. You're all about having a cause and having even more of a great time...sometimes TOO great of a time ;)

That's me, Fly!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Dispositivos ópticos para dispositivos humanos.


- Posso saber o motivo pelo qual não estás copiando a matéria?
- Não consigo ver. Posso sentar mais na frente?
- Temos espelho de classe e tu sabe disso. Como assim não consegue ver?
- Não consigo. Sento na última carteira e não consigo ver o que está escrito no quadro.
- Estás dando desculpas. Ou não consegue ver mesmo?
- Fica tudo borrado.
- Toma, leva este bilhete para a tua mãe.

E assim começou. Depois fui num médico que me fez alguns testes e acabou com a frase "Você precisa usar óculos"; Preciso mesmo? E se eu sentasse mais na frente? Espelho de classe não é somente uma forma de melhor dispor e catalogar as pessoas numa sala de aula? E se eu pudesse me levantar e olhar de perto o quadro? E vejam só, eu não estava com dificuldade nenhuma na aula. Notas boas, sempre ouvindo o que era dito, lições e trabalhos sendo feitos, e ainda me sobrava tempo para ler gibis durante as aulas. Eu precisava mesmo de óculos?

Acordei hoje, peguei esta coisa com armação e lente, coloquei no meu rosto, apoiado nas orelhas e no nariz, como manda as escrituras. Abri a janela e na frente do meu portão estava passando um cego. Contei como comecei a usar óculos, agora este evento foi o que originou estes pensamentos sobre estas coisas todas. Tenho alguns graus de miopia, e poucos de astigmatismo. Posso usar esta ferramente criada para fazer eu enxergar o mundo como todos os demais, bonitinho, formas bem definidas, cores vivas, tudo igual. Se escreverem de tal forma, verei de tal forma, afinal, preciso ver assim, não preciso? Precisar é algo tão forte, como se minha vida dependesse disso, sem os óculos não sou ninguém, então o que será que é o cego? Se eu preciso tanto assim de óculos, o cego então seria uma marginalizado, incapaz, ser que não tem a mais básica condição de existência?

Tirei os óculos, e comecei meu dia. Almoço, ir até o ponto de ônibus, viagem até o centro, caminhada até o trabalho. Os primeiros 10 minutos sem óculos foram um tanto quanto irritantes, mas depois acostumei, e tudo fez sentido. Quando troco de óculos demoro pelo menos uma semana para me acostumar bem com as novas lentes, mas voltar ao meu natural foi tão rápido. Cheguei vivo ao trabalho, nem ao menos tropecei. Meu primeiro dia com estas lentes novas me fizeram cair algumas vezes na escada com a pressa e a profundidade alterada. Mas eu preciso de óculos. Preciso para ler o nome das ruas nas placas, pois caminhar por aí, seguindo o seu caminho, chegando ao se quer sem indicações exatas é perigoso. Você precisa ler os rótulos e fazer tudo da forma mais organizada possível. Coitados daqueles que anos atrás tinham que viver as ruas e os caminhos para chegarem aonde querem. Mas eu preciso de óculos. Preciso para ler as propagandas que me dirão o que comprar, as camisetas que me irão já catalogar as pessoas pelos seus estilos. Conversar com elas para quê? Você pode olhar a marca de tênis que ela está usando, o corte de cabelo, e vais saber exatamente quem ela é. Melhor ainda, coloque os óculos para ver bem todas as comunidades do Orkut dela. Você não precisa falar comigo para saber o que ouço, podes entrar numa de minhas redes sociais e ver em quais comunidades estou, na minhas fotos as camisetas das bandas que ouço, ler em algum site a resenha de algo que fiz. Contato já não importa mais, com meus óculos eu vejo tudo isso claramente, por aí. Mas eu preciso de óculos, pois as fábricas de óculos precisam do meu dinheiro, os médicos precisam do meu dinheiro, e eu preciso ganhar este dinheiro, servindo a uma empresa que precisa de mim, para eles ganharem dinheiro, e ajudarem os seus médicos e suas fábricas de óculos.

Isso não é uma rebelião contra meus óculos, adoro eles. Só estou me questionando sobre o que precisamos mesmo. Não quero dar uma de anarquista mandando queimar os discos, os sutiãs, e os óculos. Estou só a pensar nestas questões todas, se é que você me entende. este texto não tem motivação científica nenhuma, muito menos objetivo de provar nada. É apenas uma reprodução já decupada do meu fluxo de pensamentos. O resultado final como sempre ficou meio confuso, e faltando diversos pontos que pensei nesta minha caminhada vendo o mundo de minha forma em particular, com minha visão distorcida, vendo as pessoas distorcidas. Será que estavam distorcidas mesmo? Não observando textos, idéias impressas, formas estabelecidas, eu vi as pessoas andando. Anônimos. Não reparei em seus detalhes, marcas, desleixos, passei só em me preocupar em não esbarrar nelas. Mas percebi que por mais idiota que alguém te pareça normalmente, são pessoas ainda, com suas complexidades, toda a aparente idiotice vem de algum lugar, tem uma formação, cada pessoa tem sua história e motivos para fazer isso ou aquilo. As vezes estes motivos são delas próprias, as vezes do destino, as vezes das manipulações diárias que os grandes tentam nos forças. Por grandes não falo em tamanho, mas nos dogmas. Os grandes são as regras, os caminhos já estabelecidos, normas e leis, falsas necessidades, modos de agir, morais bem vistas, bons sentimentos, caráter já definido em sua sociedade, mídias e veículos, influências familiares, gerações e gerações, e claro, a necessidade de utilizar óculos.

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Radiohead -Fitter Happier

Fitter, happier, more productive,
comfortable,
not drinking too much,
regular exercise at the gym
(3 days a week),
getting on better with your associate employee contemporaries,
at ease,
eating well
(no more microwave dinners and saturated fats),
a patient better driver,
a safer car
(baby smiling in back seat),
sleeping well
(no bad dreams),
no paranoia,
careful to all animals
(never washing spiders down the plughole),
keep in contact with old friends
(enjoy a drink now and then),
will frequently check credit at (moral) bank (hole in the wall),
favors for favors,
fond but not in love,
charity standing orders,
on Sundays ring road supermarket
(no killing moths or putting boiling water on the ants),
car wash
(also on Sundays),
no longer afraid of the dark or midday shadows
nothing so ridiculously teenage and desperate,
nothing so childish - at a better pace,
slower and more calculated,
no chance of escape,
now self-employed,
concerned (but powerless),
an empowered and informed member of society
(pragmatism not idealism),
will not cry in public,
less chance of illness,
tires that grip in the wet
(shot of baby strapped in back seat),
a good memory,
still cries at a good film,
still kisses with saliva,
no longer empty and frantic like a cat tied to a stick,
that's driven into frozen winter shit
(the ability to laugh at weakness),
calm,
fitter,
healthier and more productive
a pig in a cage on antibiotics.

Sample looping in background: [This is the Panic Office, section nine-seventeen may have been hit. Activate the following procedure.]

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Para entender este texto você precisa saber inglês? Não precisa, você acha fácil a tradução dele na internet. E para entender outras músicas que postei aqui no blog e não achou tradução? Ou outras músicas qualquer? Me disponho a traduzir qualquer música para quem quiser, use os comentários. Não sei diversas línguas e adoraria que pessoas que as conhecem me ajudassem traduzindo para mim. Cooperação é algo bacana não? Se precisamos de algo é a vontade de transmitir idéias originais e assim mudar o mundo. Não que efetivamente iremos mudar algo, não é esta a meta final, a meta a final é ter a vontade, e dar o melhor de si por ela. E a melhor forma de evoluir algo, é começar a evoluir por si mesmo, sem forçar, mas novamente dando o melhor de si. Quem tem bom espírito não precisa de nada realmente, pois os de bom espírito vivem, e isso já é tudo o que precisamos para mudar e assim evoluir. Excelsior!

domingo, 12 de julho de 2009

Simples lapso temporal urbano.


- Não gosto mais de você.
- Como assim?
- Simples. Não gosto mais de você.
- Desde quando?
- Desde agora.
- Qual o motivo?
- Não sei, estou tentando decidir.
- Então foi algo do nada mesmo? Assim. Não gosto mais de você e pronto.
- É.
- Eu não te entendo.
- É por isso!
- Pelo quê?
- Você não me entende. Não gosto mais de você, pois você não me entende.
- Ai mulher, como assim? Não é que eu não te entenda. Eu não te entendo agora.
- Então, se você me entendesse agora eu gostaria de você, mas como você não me ent...
- Pera lá! Perá lá senhorita. Este não entender é póstumo a você não gostar mais de mim, ou melhor, de você falar que não gosta mais de mim. Eu duvido que tu não goste mais de mim.
- Como assim duvida?
- Duvido oras.
- É... acho que você tem razão.
- Tenho?
- Sim. Tens. Mas então, qual geladeira vamos levar, a branca ou a creme?
- Espera. O que é isso na TV? Não era sobre isso que falavam no rádio mais cedo?

"E agora vamos para as notícias. Cachorro é visto voando no céu pela tarde de ontem no centro da cidade."

- Mais uma vez a mídia tentando nos manipular.
- Maldita mídia cara!
- Maldita mídia cara!
- Ei, está me repetindo.
- Não, você que está me repetindo.
- Mas eu falei primeiro.
- Mas eu pensei primeiro.
- Cara, não é a Paula ali?
- Sim, vamos falar com ela?
- Não cara, eu peguei o resto da erva que ela tinha deixado em cima da mesa aquele dia, ela ainda está puta comigo, pois teve que ir no batizado da sobrinha estando de cara.
- Quem é que faz a cabeça antes do batizado da própria sobrinha.
- Paula. Oi Paula!
- Oi? Oi? E minha erva seu bosta.
- Que erva?
- Aquela que tu roubou de mim.
- Roubei de ti? Não lembro. Por sinal, não vi que estavas por aqui.
- Eu estava ali lendo e vi muito bem que tu reparou que eu estava por aqui. Vai agora querer me enganar duplamente?
- Não... desculpa, desculpa. O que estavas lendo?
- Nada de mais, o jornal. Olha só esta manchete que estranha.

"Cachorro voa pelo céu da cidade!"

- Desliga o rádio. Cansei de ouvir estas porcarias, e bem, chegamos.
- Mas então, vamos rápido olhar o que tu quer. Estamos atrasados já.
- Sempre com pressa...
- Mas é simples não? Já sabemos o modelo, todas suas características, está tudo perfeito. Estou com o dinheiro, vamos pagar a vista. Só precisas escolher qual cor tu vai querer, branca ou creme!

|Fly| por "M.J." por Ismael


O maldito demente normalmente só terá sua rebeldia e loquaz poesia reconhecida e honrada pós o fim de sua vida. Em causa mortis irão anotar "marginal, vagabundo", e baterão palmas perante sua obra.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Nas incertezas eu vos digo!


Se preocupam em nivelar, rotular, classificar, catalogar, generalizar, emprateleirar, demarcar...
Já tentei ser personagens, de Tin Tin ao amigo do Rin Tin Tin, tentei ser escritores mortos e artistas vivos, tentei a pose do Presley e o topete do Dean, nada funciona, desisti para aceitar o eu mesmo.
Agora só quero andar em frente, meus pés pedem que seja pisado um novo chão a cada segundo que passa. Se quiser vir comigo dou minha mão. Se tu cansar tens meus dedos. Mais um pouco sobram as unhas. Agora quando a estafa te cobre, sereno manto, vê este pavio que sai de mim? Toma ele para ti, segura forte, até onde conseguires. Deixe que ele estique, se alongue pelo chão que estou passando, mas não me abandona se sentir que teu caminho se faz belo do meu lado. Quando não tiver mais como, faz um fogo e queima a ponta deste mesmo pavio. Enquanto aceso estarás fisicamente comigo, e no final do dia, quando o fogo me alcançar, nossos espíritos sofrerão um amálgama, e onde estiveres sentirá o que eu sinto. Pulsaremos juntos como se no mesmo espaço fossemos vida, quebrando as leis da física, pois elas são fracas perto de nossas inquietações, dos sonhos, das aspirações e dos traços de rebeldes, de poetas, de desesperados neste mundo negro, aparentemente sem salvação. E quando a volta ao mundo eu der, voltarei a este ponto onde terás minha mão novamente, e também remédio para te curar. Seremos então a salvação, se não do universo, sim de nossas curtas existências (múltiplas, mesmo quando ritualizadas em unidades).
Tua vez de seguir em frente, não tenha medo e nem olhe para trás. Tenha certeza que estou segurando firme na ponta de teu vestido, se fraquejar esta certeza eu te perdôo. Peço então, fiques quieta, e sinta o calor que emano. Este calor será a prova de que sou diferente do usual. Tu que és diferente também, irá de momento assimilar o caos que surge desta nossa entropia. Sorva este calor do que em mim nunca apaga, deste corpo que serve como tocha para minha alma flamejante.